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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O Pequeno Grande Homem



Um homem estava parado no alto do penhasco, de frente ao sereno mar prateado, onde o céu está parcialmente nublado, permitindo a passagem da faixa de luz pálida do sol a tocar na superfície de água cristalina que ondula de maneira hipnótica. As gaivotas arruam, voando próximo a ele. De longe, no horizonte havia uma presença de um barco de pescadores.

Seus olhos, pequenos, porém, ternos que não conseguem disfarçar a presença de algumas rugas ao redor de seus olhos marcados pela experiência difícil da vida desde a terna infância roubada, quando vendia amendoim para sobreviver em um bairro empoeirado e pobre, de sua adolescência rebelde sem causa; brigava e criava confusão na escola. Viveu muitas aventuras e farras loucas em sua juventude sofrida, lidando sempre com doenças na família. A mãe que sofreu acidente vascular cerebral e teve derrame de um lado do rosto de maneira permanente. O pai alcoólico sofrendo de mal de Parkinson; a irmã adotiva com múltipla deficiência, e de vez em precisava cuidá-la,  como levar ao médico e escola especial.

Enfim, na faixa de seu trinta anos, em completo estado de maturidade serena e resistente a todas as situações, somente ele saiba como superá-las e triunfá-las, sempre com a mente voltada a Deus e a vida. Diante de todos os infortúnios, jamais abriu a boca para reclamar da vida que tinha. O que mais importava é cuidar de si mesmo e valer-se da vida que tem.

O homem olhava para o mar em busca de paz interior. A paz que ele mais necessitava depois de passar por um turbilhão de problemas familiares, recuperando-se do susto, deparou com sua mulher sofrendo de câncer de mama; ela mal acabara ter um bebê. O bebê teve de ser amamentado por uma mamadeira com o leite em pó recomendado pelo médico, e o homem temia pela vida da mulher,  que  amava muito.

Ele permanecia parado em frente ao mar; seus ternos e dóceis olhos avermelhados pela sua sensibilidade que aflora por dentro, traziam uma grande bagagem de experiências e várias emoções que valeram a pena viver, as quais deixaram um grande aprendizado de vida. Sentia a alma transportar-se com tamanho orgulho pela força que tem; uma força de leão com o coração de pomba; sempre auxiliando as pessoas que mais necessitavam, através de conselhos adquiridos pela experiência própria de vida.

Este pequeno grande homem possuia várias facetas. O bom, o brincalhão, o sério, o porra-louca, o aventureiro, o paternal, o baladeiro, o briguento, o afetuoso, o amoroso; Este mesclado de sentimentalidades o tornara um ser humano muito especial. Pessoa igual a ele não se encontra por aí, só daqui a mil anos. Ele representa centenas de peças que formam uma bela arte de quebra-cabeça, formando um ser criatura multifaceta.

Quem é este ser pequeno grande homem com mania de viver a grandeza, mas com coração incompreendido e julgado por todos? Um homem que sobreviveu de um parto prematuro aos seis meses da gestação de sua mãe. Sempre seguiu em frente enfrentando muitos obstáculos que a maioria das pessoas talvez não conseguiriam enfrentar; caindo na bebedeira, na droga, e até mesmo tentativas de suicídio. Ele não se acovardava. Encarava os problemas numa boa com frieza e serenidade, pois o mundo lá fora é uma verdadeira selva. Tanto os problemas de dentro de sua casa, quanto aos do mundo selvagem lá fora, ele nunca fora de reclamar. Vez ou outra, chorava, chorava para tirar a dor e o peso que sentia por dentro para depois sentir-se revigorado.

O pequeno grande homem em vez, ou outra aprontava como uma criança, mas ele é um ser humano como qualquer um, possui falhas. Ninguém é perfeito. Ele sorriu; sorriu por tudo. Sente-se bem e que continuou fazendo o que sabia fazer de melhor: viver de bem com a vida que Deus lhe deu.

Não tardou muito afastar do penhasco e entrou no carro, o qual uma linda menina de cabelos castanhos escuros, com um vestido amarelo, dormia tranquilamente no banco de trás. Ligou o motor e partiu para casa; sua esposa lhe esperava para um delicioso churrasco.

Texto e criação do autor Denis Lenzi, ao utilizar este texto, por favor, não se esqueça de mencionar a autoria.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

OS PAPÉIS DO DESTINO



Derek está sentado no banco do ponto de ônibus, sozinho. Seus olhos abrem bruscamente e olha ao seu redor. Sua mão alcança alguma coisa, como que quisesse pegar alguma coisa - algo que deixou escapar! E logo percebe que não há ninguém por perto. Era uma tarde chuvosa e fria. Olha para o movimento na rua molhada. Seu pensamento está distante, em silêncio. Seu semblante está triste e uma lágrima que desce no rosto acaba por cair por cima do papel amarelo, e das palavras escritas nele. Vento gélido sopra seu rosto e arranca um pedaço de papel na sua mão, que voa para o outro lado da rua.

Caía a chuva cântaro por sobre aquela estrada longa e retilínea.
Surgiu um carro com os faróis acessos que iluminavam
a estrada de asfalto molhada,
com milhões de gotas de chuva brilhantes.
Os pentes do para-brisa moviam-se de um lado para outro,
enxugando as lágrimas de uma noite de tempestade.
Um homem gesticulava e sua voz parecia
um trovão ao expressar a sua raiva pela mulher
sentada ao seu lado.

Tamara está sentada no banco do ponto de ônibus. Está sozinha com um livro em sua mão. Atrás dela um enorme muro pintado totalmente de flores amarelas. Não há ninguém por perto. O sol brilha em seu rosto claro e sereno. Seu pensamento está focado nas palavras que transbordam nos papéis. Sua feição está incrivelmente triste. Algo aconteceu a ela. Vento primaveril sopra em seu rosto e arranca de sua mão um pedaço de papel rosado, que voa para outro lado da rua.

A mulher ao lado chorava, com seus olhos avermelhados e
tentava se acalmar em vão.
O homem pisou fundo, acelerando a velocidade,
deixando-a ainda mais aflita.

Derek espirra e ajeita o casaco. Olha suas mãos por um breve momento, tentando entende todas as coisas. O vento continua a soprar e um pedaço de papel rosado surge do nada e gruda em seu peito, como algo que agarrasse a esperança daquele homem solitário. Ele pega o papel rosado e lê.

O carro atravessou numa velocidade assombrosa
preste a decolar.
O chão da estrada estava escorregadio.
O motorista estava sendo muito imprudente naquela hora,
sem pensar na real conseqüência que poderia vir.

Tamara fecha o livro, ajeitando o cabelo. Coloca o livro em sua bolsa quando um pedaço de papel surge por sobre seu colo, que abre e revela as suas palavras impregnadas nele. As três palavras poderosas.

A mulher gritava, desesperada chorando muito:
Para! Para!! Pelo amor de Deus!! Está me assustando!”

Derek sorri após de ler um pedaço de papel e seus olhos marejam.

O rosto do homem estava tomado de cólera e de fúria.
As veias saltam do seu pescoço. Ele berra:
Tá com medo?” Ela sentiu o cheiro de álcool que exalava de sua boca.

Tamara sorri e sente seu coração palpitar com força. Parecia que tinha uma lembrança despertada. Algo que não se lembrava, mas que lembrou e que entendeu tudo.

A mulher chorava e implorava ainda, temia pela segurança dos dois:
Por favor, não deixe que o ódio domine você.
Eu te amo tanto, querido. Por favor, diminua a velocidade!

Derek, sentindo impulsionado a virar o rosto para o lado, como que alguém lhe chamasse, alguém que lhe esperando do outro lado. E assim o fez.

Ele a encarava com desdém.
Sentia raiva dela. Suas mãos agarravam o volante
com tamanha fúria e desvia-o.
O carro dá uma virada na curva da estrada e
por pouco quase capota.

Tamara suspira e olha para o outro lado da rua, sentindo uma estranheza - alguém lhe olhava. Não sabia por que e como, mas mesmo assim, virou o rosto para lado e viu o homem do outro lado da rua.

As lágrimas rolavam no rosto da mulher e
Ela colocou a sua mão por sobre a dele,
com a esperança de acalmá-lo e
fazê-lo diminuir a velocidade.

Derek vê uma mulher sentada no banco do ponto de ônibus, com lindos desenhos de flores amarelas pintado no mural atrás dela, formando uma bela imagem que agrada aos seus olhos.

O homem olhou de modo nervoso para a mulher,
que lhe clamava para que ele parasse com aquela loucura.
No colo dela há uma caixa
cheia de papeis coloridos e cada papeis há escritos neles.

Tamara contempla a beleza daquele homem sentado no banco do ponto de ônibus, que segura um guarda-chuva, embora não haja chuva naquela tarde. O homem acena assim que a mulher o olha.

O homem pisou o freio, e o carro escorregou,
deslizando por sobre
a fina camada de água na estrada,
rodopiando como um carrossel.
A mulher gritou desesperadamente.
As unhas do homem cravaram no volante.

Tamara, parada, com o seu coração almejando por aquele amor, vê-lo se levantar e atravessar a rua. Ela sorri.

O carro parou de rodopiar e as luzes dos faróis iluminavam 
em frente do longo mural pintado de flores amarelas. 
Foi por um triz. Mais dois metros seria atingido por 
aquele mural e os dois sairiam gravemente feridos. 
A mulher soltou um suspiro aliviado, 
mas lágrimas ainda rolaram seu rosto, 
olhando para o homem, cabisbaixo, caindo na real. 
“O que está acontecendo comigo?”

Derek chega em frente a ela. Ela fica sem palavra. Ele entrega um pedaço de papel rosado a ela. Ela entrega o papel amarelo a ele.

A mulher enxergou as lágrimas, e passa a mão no cabelo 
do seu marido, e disse: 
“Está tudo bem, meu amor!” 
o homem olhou para ela e seu rosto expressava um misto 
de arrependimento e choro. A mulher tirou o cinto de segurança e 
o abraçou. Antes que ele abrisse a boca, 
as luzes dos faróis por detrás deles invadiram o carro e 
ouviram um longo som de buzina.

Derek diz a ela: “Eu nunca deixei te amar, mesmo que você tenha partido”.

Ali um caminhão que transportava toras de madeira era freado, 
mas a estrada estava escorregadia e o que veio a acontecer 
a seguir foi trágico e terrível. O caminhão bateu na parte traseira 
do carro, de maneira tão violenta, que uma mulher por dentro foi 
lançada para fora, atravessando o pára-brisa, que despedaçava 
em milhões de pedaços de vidros juntamente com as gotas de chuva.

Tamara sorri, colocando a mão sobre o peito dele, sentindo o pulsar do coração e diz: “Eu nunca me esqueci de você, mesmo depois de minha morte.

O homem saiu do carro cambaleante, aos berros, totalmente ferido. 
Sua roupa estava encharcada de sangue. 
Um pedaço de ferro tinha trespassado no seu peito. 
Sangrava profusamente. Via o corpo da sua amada mulher caída ao chão,
 próximo ao mural de flores amarelas. 
Ele caiu no chão enquanto centenas de papéis coloridos são espalhados ao ar, 
e à medida que se molhavam com a chuva caiam pesados ao chão coberto de sangue.

Dois papéis, o amarelo e o rosa, se juntaram.
As frases que faltavam um ao outro se complementam.

Os olhos da mulher moribunda,
com o sangue escorregando na sua testa,
marejavam ao ver o homem ferido na sua frente,
que rastejava com esforço, tentando chegar a ela.
Ela tentava esboçar um sorriso o último sorriso
para o homem e depois disso
o brilho vivo nos olhos desapareceu.

No papel amarelo, dizia – O amor nunca morre....

O homem esticou o braço com a última força que tinha,
com a mão próxima a ela;
mal a tocou e sua cabeça caiu ao lado, com a chuva no seu rosto,
que misturava a suas lágrimas.
Seu corpo repousou no chão asfaltado,
formando em poço de sangue de ambos.
Os dois se foram.

No papel rosado, dizia - O amor permanece unido.



Texto e criação do autor Denis Lenzi, ao utilizar este texto, por favor, não se esqueça de mencionar a autoria.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Niby Ruman



Num imenso campo silvestre onde havia centenas de vagalumes com suas luzinhas que piscavam enquanto volitam por todos os lados, ali no meio estava o menino chamado Niby Ruman, deitado de costa sobre o gramado com os braços sob a cabeça olhando para o céu estrelado. O menino tem apenas 10 anos. Seu cabelo é preto como o breu de uma noite sem estrelas, fazendo com que seus olhos cor de violeta se destacassem, e as pessoas mais atenta repararam a presença de um leve brilho nestes belos olhos. 

Ao seu lado, estava o seu avô, sentado sobre uma cadeira dobrável, onde fuma um cachimbo, olhando a fumaça que sobe após tragar o fumo. Na sua frente há um telescópico montado, daquele que vende em loja de equipamentos fotográficos. 

Niby fita o céu, contemplando a beleza do campo negro com seus pontos brancos e luminosos, bem no meio deles, há um grande ponto avermelhado, e em torno desse surgia um par de asas levemente luminosas. 

— Você acha que aquele planeta é habitado? – pergunta o menino, com ar curioso. 

O avô tragou seu fumo silenciosamente com olhos fitados para o ponto avermelhado, e em seguida, olhou para o menino. 

— Sim. 

— Como sabe? 

— Acho que é momento propício para você saber a verdade. Não estamos aqui apenas por acaso. Tudo tem um propósito. Em breve você completará 11 anos. É nesta idade que você sofrerá uma grande transformação. 

O menino se levanta intrigado, sem entender nada. 

— Como assim? 

— Aquele planeta que está vindo para cá, está fortemente ligado a você. 

—Ligado a mim? Não estou entendendo nada, senhor. 

— Havia um ser que vivia em outro mundo veio aqui, e escolheu a minha filha para semear a semente dele dentro dela na qual mais tarde você veio a este mundo. Aquele ser disse que a sua existência daqui é fundamental, já que você observará tudo sobre as pessoas, sobre o mundo, e de como ele funciona. Aquele planeta que estamos vendo agora não é uma boa coisa, e chegará aqui nos próximos meses, tudo o que nós conhecemos aqui deixará de existir. E somente você guardará todas as memórias da nossa existência e levará a eles, passando-os todos os conhecimentos adquiridos aqui na terra. 

— Você está falando sério? 

— Infelizmente, sim, e é por isso que estamos aqui. Para observar aquele planeta anão-marrom. De anão não tem nada. Será um objeto bem maior que a humanidade já presenciou. E nada adiantará fugir, ou se esconder. Temos que aceitar o fato. O fim do nosso destino está encaminhando por aquele planeta. Quem disse tudo isso foi o semeador que veio aqui, depois de deixar o fruto com a minha filha, ele me contou tudo sobre o que virá a seguir. Contou sobre aquele planeta que não é nada bom. Demorei muito a acreditar; não quis aceitar o fato sobre o fim que virá, mas com o tempo entendi o propósito de tudo isso. E apesar de tudo, você foi a melhor coisa que já aconteceu em minha vida. 

O menino estava com os olhos cheios de lágrimas, e já sentia um aperto no coração somente em pensar na idéia da Terra deixar de existir. 

É algo que é difícil de engolir, mas no fundo aquele velho senhor estava falando a verdade. Niby Ruman sempre foi um menino diferente, nunca ficou doente durante toda a sua vida, e seu sangue, em vez de vermelho, saia em cor violenta. Esse detalhe sempre foi ocultado pela sua família, sabendo o risco de expor o menino ao mundo curioso, que fará de tudo para tirar um pedaço dele, até mesmo para realizar as experiências que os militares costumam fazer com os seres extraordinários, sejam eles anjo, demônio, alienígena, tudo em nome da ciência. Porém, o Niby sempre permaneceu no anonimato até o dia em que a chegada do novo e gigantesco elemento dentro do sistema solar pudesse mudar o destino da Terra. 

— E quanto a você, vovô? E mamãe? Vão vir junto comigo? 

Ele olhou para o menino e esboçou um sorriso sincero. 

— Quem nos dera, meu anjo, quem nos dera... Não temos escolhas. Você partirá, mas levará consigo o nosso amor dentro de você. Queremos que preserve sempre o nosso amor que lhe demos de bom agrado, não se esqueça disso! 

Se houvesse um momento em que o fim, estivesse próximo, o que as pessoas fariam? Elas devem aproveitam o máximo de sua vida. Cada hora. Cada minuto. Cada segundo, para que a vida possa valer à pena, mesmo que seja por um minuto apenas. É por isso, meu anjo, que estamos aqui, para fazer valer e pena as nossas vidas. 

O menino meneou a cabeça e olhou para o céu, vendo aquele ponto alado e luminoso, que brilha intensamente, aproximando-se da Terra cada vez mais, fazendo com que a Terra parecesse um grão diante do colossal elemento destruidor. 



Texto e criação do autor Denis Lenzi, ao utilizar este texto, por favor, não se esqueça de mencionar a autoria.






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PerSe lançou o “Prêmio Melhores Capas”, que escolherá a capa mais instigante e mais vendedora, dentre os livros que se inscreveram. E todos poderão votar nas três melhores capas.

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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A Menina no lixão



Nyanna estava parada em frente de um imenso lixão, que mais parecia a um deserto de entulhos, dominado pelos milhões de latinhas de alumínios, montes de ferros distorcidos, papelões e outros objetos espalhadas. Há um bando de urubus que voam, e circulam no céu que mesclava entre o rosa, e o baunilha. Ali havia presença espetacular dos dois sóis, um deste era o mesmo que conhecemos há milênio dos anos, o mesmo que se chamava o Astro-rei, e o outro era cem vezes maior que o outro, chamado de planeta vermelho, com sua cor que varia entre vermelho e amarelo, daí se assemelhava a um grande sol. Ambos ficavam bem próximos do horizonte, na sombra de uma montanha íngreme. Uma visão surreal e encantadora. Enquanto havia uma beleza transcendental do sublime céu, e do seu universo com as suas estrelas que expandiam a cada dia, ali em baixo a visão é completamente outra. É triste. É desolador. Quem passa ali sente a alma ferida que leva um tempo para se cicatrizar. Por conta dos dois sóis, o calor ficava intenso durante a parte da manhã, e durante a tarde, ninguém se aventurava a ir lá fora; somente ao entardecer, quando o calor tende a ser bem menos castigante; a terra do lixão exala o fedor que vem acompanhado pelo o vento que balança os seus longos cabelos vermelhos, que dançam e balançam.

Os olhos verdes claros da Nyanna expressavam um misto de indignação e tristeza. Indignação, porque estava havendo um desacato à natureza, por jogar todos os lixos naquela terra. Tristeza por causa das pessoas que vivem ali, com suas casinhas de papelão e latão. Havia pessoas que circulavam e andavam por sobre a terra de lixo. Alguns catavam objetos metálicos, outros de papeis para recicláveis, e também algumas crianças que procuravam por brinquedos por baixo dos entulhos vindos de todas as partes da cidade.

 Quando Nyanna e seu grupo de amigos voluntários vieram a este triste espaço, para distribuir as cestas que continham os alimentos básicos, e principalmente alguns galões de águas para banhos, já que nesse local não havia água tratável, ao chegarem, dezenas de famílias que vivem no lixo correram em sua direção, na esperança de conseguirem suas desejadas cestas e latões de água. Todos cercaram a picape, e o grupo que distribuía água e alimentos a cada uma das famílias.

  No meio de todas as pessoas agitadas, que cheiravam mal, Nyanna foi surpreendida, nem mais, nem menos, por algo vivo que enlaçou a sua coxa. Ao baixar a cabeça com certo temor, logo deparou uma pequena criatura com um lenço que cobria a sua cabeça. Uma menina. Ela devia ter uns seis anos. Um amor de criança, toda imunda, dos pés até o rosto, e seus olhos sobressaiam as cores azuis como nunca vira antes. Seus olhos pareciam remeter o céu azul que outrora a terra teve. A luz dourada dos sóis beijava o seu perfil, e seu olhar cheio de vida. e de brilho expressava uma ternura inigualável; parecia transmitir uma força de esperança, não sabia de onde e como...

 Antes que a Nyanna abrisse a boca, a menina lhe fitou e disse baixinho, de modo dócil e suave, como ao som de uma harpa de um anjo escondido por dentro dela.

 “Tia, me ajuda, por favor?”

Os olhos da Nyanna emudeceram. Vendo aquele dócil rosto da criança, seus olhos azuis e vivos, e a sua voz como um anjo, não havia como negar a um pedido daquela criança.

 “Preciso de água para minha mamãe”

 Nyanna olhou ao seu redor, procurando a mãe dessa graciosa menina, mas nenhuma dessas pessoas se apresentou como sendo a mãe dessa pequena e notável criatura. Então, a menina, com sua voz de anjo, disse:

 “Ela não está aqui. Ela tá com dodói. Estou fazendo tudo sozinha e tenho que ajudar a mamãe! Por favor, tia, me ajuda!”

 Nyanna sentiu um nó na sua garganta. Sua alma foi atingida por um violento soco emocional, que percorreu por todo o seu corpo, até no profundo do seu ser. O vento se misturava entre o fedor do lixão, e o perfume agradável que advinha da natureza escondida por detrás daquele cenário horrendo, ao mesmo tempo em que seus olhos fitavam aquela menina que agarrava a sua perna. Ela meneou a cabeça, e foi buscar um galão de água de dez litros, e o carregou com esforço até a menina. A menina soltou uma gargalhada ao ver um galeão deixado no chão e olhou para os olhos da Nyanna e disse:

“Obrigada, tia!”

A menina, por incrível que possa parecer, pegou o galeão de dez litros, como se fosse uma a uma boneca. Ela tinha uma força inigualável e Nyanna ficou preocupada, temendo que o peso pudesse machucá-la. Mas antes mesmo que a mulher tomasse uma atitude, a menina disse, com um sorriso esboçado no rosto:

“Não preocupa comigo! Estou acostumada! Sempre carrego minha mãe, que pesa mais do que este galeão de água, e tenho que lavá-la todos os dias. Obrigada por tudo, tia!”

E depois disso, ela se afastou da Nyanna, e rumou por entre os montes dos lixos, sob os urubus que voavam e circulavam a redondeza, até desaparecer. O momento em que os dois sóis descem por trás das montanhas, deixando o céu ainda mais colorido. Foi o momento em que Nyanna sentiu um grande impacto como nunca sentiu antes. Ela deveria ter feito algo a mais, do que simplesmente ter ficado parada, e olhando feito uma boba para a pequena criatura. A força daquela pequena menina, sua ingenuidade em relação a tudo que está acontecendo; a pobreza; a falta de qualidade vida, de educação, do lar agradável; nada disso tirava o sorriso dela. A alegria e a esperança ainda permeavam em seu interior infantil, e assim ela se foi. Nyanna olhou para seus amigos que trabalhavam com o suor percorrendo a testa enquanto terminavam a distribuição. Ela sorriu, mas sentia um aperto de dor no coração, e em sua alma, tudo por causa daquela menina, daquele pequeno anjo sujo e sem asas. Ela desviou seus olhos para o chão, deixando a lágrima rolar no rosto. E a lágrima, com seu reflexo de dois sois dourados, caía numa fração de segundo no solo, e para sua surpresa, um único girassol, com suas pétalas amarelas, permanecia em pé, e firme em meio de todas as ferrugens e papelões. Ela sorriu. Sabia que nada disso é tarde demais. Há uma esperança.

Texto e criação do autor Denis Lenzi, ao utilizar este texto, por favor, não se esqueça de mencionar a autoria.


CANTINHO DO NOVO AUTOR

MARIA ALICE


Este livro pretende apresentar uma visão mais otimista da transformação, que ocorrerá, brevemente, no Planeta Terra. Nele o leitor encontrará temas polêmicos, como o uso das células embrionárias pela Medicina, a existência ou não dos OVNIs e uma previsão do Planeta, após as catástrofes, previstas por alguns cientistas, para 2.012 e, por outros, em 2.020. Trata-se de um romance de ficção que, com certeza, prenderá a atenção do leitor. Espero que esta obra seja de alguma forma, em prol de seu crescimento como ser humano. Qualquer semelhança, com pessoas vivas ou mortas, é mera coincidência.












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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Uma Noite Com Ellen Aim


Estou em frente da antiga casa de show, onde há uma placa que estava escrito: Des Plaines, o nome da cidade onde nasci, e onde morrerei em breve. Estava frio, e caia neve naquele momento. Não havia movimento na rua, outrora, jovens que circulavam por ali, frequentadores assíduos da casa de show que apresentava a sempre inigualável e talentosa Ellen Aim, uma estrela de rock que conquistou milhares de corações, incluindo o meu. 
A música não saia da minha cabeça, e era assim:

Eu tive um sonho com um anjo na praia
E ondas perfeitas começaram a vir
Seu cabelo estava flutuando num arco-íris dourado
E seu toque tinha um poder paralisante...

Encontro-me na faixa de meus 90 anos, com um coração gasto pelo tempo; não tardará a parar de bater, segundo diz o meu médico. Separado há três décadas, com os filhos já crescidos e formando família, nunca mais os vi. Esqueceram-me. Estou só, em meus últimos momentos de vida; decidi volta para esta cidade e rever a casa de show. Vivenciei uma época marcante que durou a vida toda. Andei com o auxilio de uma bengala, e sentei-me em um banco de ferro frio pela neve que o cobria. Meus olhos lacrimejam por causa do vento gélido, enquanto fitavam aquela casa de show; e fiquei revivenciando aqueles anos dourados de minha vida. Ainda ouço a voz dela na canção,

Eu tive um sonho com um anjo na floresta
Encantado no meio de um lago
De seu corpo saiam raios de luz
E a terra começou a tremer...

Enquanto flocos de neve caiam por sobre mim, eu pude, com meu sorriso singelo, visualizar a rua molhada, que refletia as luzes de neons multicoloridos. Era noite de outono de 1953. Havia jovens que vinham de diversos bairros para assistir ao show; na placa com neons azuis e vermelhos, piscavam os dizeres: ELLEN AIM – THE ATTACKERS. Entrei sozinho para o salão do espetáculo. Havia muita gente lá; garotada que gritava e clamava pela estrela de rock por sobre as luzes de neons que ofuscavam do palco...

Mas eu nao vejo nenhum anjo na cidade
Eu nao vejo nenhum coro santo cantando
E seu eu ainda nao posso ter um anjo
Eu ainda posso ter um rapaz
E um rapaz é a coisa mais próxima
A coisa mais próxima de um anjo
Um rapaz é a coisa mais próxima...

A sala estava escura, apenas feixes de luzes que iluminavam o palco. Lá estava a minha estrela. A garota dos meus sonhos. Ela está linda! Seus cabelos castanhos avermelhados pela luz vermelha do holofote; o rosto alvo e lábios rubros que mais lembrava um anjo. Seu corpo perfeitamente modelado e contornado por um lindo vestido de couro vermelho, e uma tira preta em torno do seu pescoço como se fosse uma coleira; nada cobria a sua beleza que tanto me atraia. Ela cantava assim, tão linda que chegava a derreter o meu coração:

Eu tive um sonho com um rapaz num castelo
E ele dançava como um gato na escada
Ele tinha o fogo de um príncipe em seus olhos
E soavam tambores em seus ouvidos...

Parei de frente ao palco, e sobre ele havia sete rapazes preparando os seus instrumentos musicais. Três negros e quatros brancos. Todos vestiam terno de cor cinza claro e gravata amarela. Ouço os murmúrios dos rapazes ao meu lado que diziam - Ellen Aim é a mais gostosa de todas; a mais linda! Tenho o desejo de levá-la para a cama em uma noite selvagem.

As meninas ficam admiradas por ela por ser única, forte e independente, coisas que os pais não aceitavam por ser uma atitude ousada. Eu não pensei dessa forma; desejei apenas que ela fosse minha e única mulher em minha vida. Muito mais do que levá-la para a cama, ou qualquer outra coisa, desejava tê-la ao meu lado para conversar; contemplar a sua beleza angelical, a sua voz que me enchia de contentamento e de esperança.

Eu tive um sonho com um rapaz numa estrela
Olhando para o mundo real
Ele está sozinho e sonhando com alguém como eu
Eu não sou um anjo, mas ao menos sou uma mulher

Ela canta lindamente, não há outra como ela; sua voz me enfeitiçava. Os rapazes deliravam. As garotas ficaram loucas e histéricas. E eu, imóvel, como uma estátua; um tolo apaixonado por essa mulher, que não podia me ver, nem saber da minha existência. Oh, Deus, como ela é linda...

Eu tive um sonho que quando a escuridão acabar
Nós estaremos juntos em raios de sol
Mas isto é apenas um sonho e esta noite é a realidade
Nunca saberá o que significa,
Mas você saberá o que sinto
Quando estiver por acabar (acabar)
Antes que você saiba que começou
(antes que você saiba que começou)
Tudo é possível esta noite
Pare de chorar (esta noite)
Antes que você saiba, acabou (esta noite)
A noite está apenas começando

Sim, a noite está apenas começando. A música vibrava. Meu corpo balançava. É impossível resistir ao ritmo contagiante; as batidas; as luzes de holofotes e aos neons. A multidão pula, bate as palmas e cantam acompanhado-a. Minha cabeça atordoa. Meu coração acelera. Esboço um sorriso. Ela canta. Ela dança de maneira sensual, “quero-a ainda mais, minha linda estrela...”

Deixe as rebeliões começarem
Deixe os fogos começarem
Estaremos dançando pelos desesperados e corações-partidos
Deixe as rebeliões começarem
Deixe os fogos começarem
Estaremos dançando pelos desesperados e corações-partidos...

Oh, Deus, como a quero tanto. Minha amada Estrela. Quero levá-la comigo para o meu lar. Será que sabe de minha existência? Será que vai me amar como sou, um nerd franzino e pobretão? Será que valho alguma coisa para ela? Alguns me diriam que ela é muita areia para meu caminhão.

Disse uma prece na escuridão para que a magia comece
Não importa o que pareça
A noite está apenas começando
A noite está apenas começando
Antes que você perceba acabou,
A noite está apenas começando
Antes que você perceba acabou...

Fecho os olhos e a imagino me vendo, e me admirando. Sim! Ela está me admirando e esboça um sorriso lindo e sexy para mim. Todos dançam. Os rapazes tocam seus instrumentos. As luzes acompanham. Ela não canta mais, apenas me olha como sempre desejei. Seus olhos percorrem sobre mim, primeiro meu corpo, depois meu rosto, e por último, olha em meus olhos por longos minutos. O povo canta.

Eu tive um sonho que quando a escuridão acabar
Nós estaremos juntos em raios de sol
Mas isto é apenas um sonho e esta noite é a realidade
Nunca saberá o que significa,
Mas você saberá o que sinto
Quando estiver por acabar (acabar)
Antes que você perceba acabou...

Ela desce do palco por uma escada; o povo parece não notar a sua presença no meio; caminha em minha direção, com seus lindos e longos cabelos lembrando a juba bem tratada de um leão; olhar magnetizante, lindamente fatal e atraente. Meu corpo treme. Meu coração acelera loucamente.

E tudo é possível esta noite
Pare de chorar (esta noite)
Antes que você perceba, acabou (esta noite)
A noite está apenas começando
A noite está apenas começando...

Ela para a minha frente, e me olha infinitamente. Sorri. Não diz nada, apenas sorri para mim. Eu fico bobo e feliz ao mesmo tempo. O povo pula, canta e vibra, enquanto olha para o palco sem a estrela de rock, que está agora comigo, apenas comigo e mais ninguém. Ela finalmente beija a minha boca, e seu sabor é adocicado e gostoso. Foi o beijo mais longo de minha vida. A música toca. Os rapazes sacodem. O povo canta. Batem as palmas. Ellem Aim me olhava e segurava a minha mão; finalmente, ela me diz: “Hora de ir, meu amor! Chegou a sua hora”. E eu faço um sinal com um sim. Sim! Estou pronto para ir. Estou muito feliz por ter você, meu anjo, me acompanhando em algum lugar que desconheço.

Deixe as rebeliões começarem
Deixe os fogos começarem
Estaremos dançando pelos desesperados e corações-partidos
Deixe as rebeliões começarem
Deixe os fogos começarem
Estaremos dançando pelos desesperados e corações-partidos...

Ela pegou a minha mão, e me levou em direção à porta da saída, por onde saia à luz pálida. Havia um lugar lindo lá fora; uma pessoa, na proximidade de sua morte, tenta reviver mais uma vez alguma época, em algum lugar, antes de partir, para realizar um sonho que tanto marcou a sua vida. O meu sonho foi este, reviver uma noite com Ellen Aim...


Texto criado por Denis Lenzi. Personagens e cenários baseado do filme Ruas de Fogo (em inglês: Streets of Fire). Criador e diretor do filme: Walter Hill - Ano de Produção: 1984.
Música: Tonight Is What It Means To Be Young - Fire Inc.
http://www.youtube.com/watch?v=HU_23LshQFk

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