quarta-feira, 31 de agosto de 2011

DESPEDIDA DE INOCÊNCIA



 Sentada em frente à janela, observo em fração de segundo os movimentos lá embaixo. Todos carregam os guarda-chuvas multicoloridos sob a chuva de prata que caía em estado de melancolia. O ar está funesto. É frio. Há vento outonal que sopra no meu rosto através da fresta da janela. Ouço a música celta, que vem do vizinho do andar de cima, e a melodia soa por todos os cantos do meu quarto. Meus olhos entristecem. Há um vazio interior dentro de mim que clama o sol; a luz do amor para encher o vazio que existe por dentro. A solidão me toma conta e isso me afligisse; mata-me e angustia.

Quero os risos dos amigos.

Quero vê-los brincar no quarto de minha pequena dona.

Ouvir as baboseiras que ela dizia. Mas, não. Aqui só há silêncio. Eles não aparecem, faz tempo que não os vejo mais.

Vivo apenas nos sonhos sublimes que vêm e vão. A realidade por si só é dura e terrível. Abro a janela. Penso que ela se foi.

Cadê a pequena dona que outrora me enchia de viver? Enchia de viver a vida com a sua alegria e risadas.

Olho lá embaixo e vejo os movimentos na calçada molhada. Ao lado, uma fila de carros no estacionamento, imóveis, sob a interminável chuva de prata, que reluz pelo reflexo da luz dos postes. É fundo; é alto; atordoa-me e fascina ao mesmo tempo.

Ando por sobre a cômoda e me vejo no espelho em forma oval ladeada de ouros folheados. Vejo apena um par de olhos de botões pretos, uma boca em forma de zíper e um nariz feito de bolhinha de algodão. Sou uma estranha boneca miúda que a dona deixou aqui, em um quarto vazio e triste.

Apenas uma cama pequena mal arrumada, uma mala vermelha e aberta cheia de roupas e um cheiro fétido no ar. A podridão que pairava no ar anunciava, havia uma morte ali. Há mancha de sangue perto da porta, mas ninguém aparece para limpá-la. Minha dona não aparece mais e nem me acompanha como costumava fazer. Sua companhia era agradável e deliciosa, mas agora tudo se foi. Estou sozinha em frente ao espelho. Sou uma estranha boneca, com feição feminina, porém bizarra, com alguns respingos vermelhos que a minha dona causou em mim antes de cair ao chão. Um homem com um martelo atingiu a sua cabeça e saiu sem se importar com corpo da dona caída ao chão. Ele voltou, e arrastou o corpo adormecido por sobre a poça de sangue. Ele a arrastou para fora, deixando um rastro de sangue e desapareceu, desde este instante, a porta permaneceu fechada; desde então, a música celta ainda toca, enchendo-me de emoção. Permaneço sozinha. Volto para a janela e olho lá embaixo. O barulho da chuva me intriga. O cheiro da água da chuva. O céu escurece. O quarto está em penumbra. Há sombras projetadas na parede que se formam figuras demoníacas, que amedronta e me deixa acuada.

Olho lá em baixo e vejo a dona, que me olha e me acena. Ela sorri para mim. Acena-me. Chama-me. Eu fico feliz. Ela voltou. Ela abre os braços, e me espera. As sombras atrás de mim chegam cada vez mais perto. Olho para dona que me chama...

Dei alguns passos, e meu corpo foi lançado em uma queda livre junto com as gotas da chuva prateada em direção a calçada molhada.

Cadê ela?

Cadê a minha dona? Para me segurar da queda? A dona... Sumiu!

Meu corpo espatifa.

Meu peito estoura e sai às entranhas feitas de algodão.

Meu corpo é destroçado por um bando de gatos, logo deixo de existir, assim como o corpo da pequena dona, que cheira a podridão, se transforma a carne de uma verdadeira morada de vermes.

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CONHEÇA A OBRA DO AUTOR


 
— Que boneco bonito! — disse Susie, assim que colocou os olhinhos no boneco que David trazia. A menina não conseguia esconder seu encantamento, tanto com o boneco como com o casaco de David. Gostava daquela mistura de cores.

David sorriu. Observou que atrás da menina, não muito longe, um homem e uma mulher, de mãos dadas, olhavam para o mar. Concluiu que devia ser os pais da pequena, a quem perguntou:

— Seu nome é Susie, certo?

— Como você sabe meu nome? — indagou Susie, surpresa.

— Eu sabia o seu nome porque alguém muito especial me pediu para vir até aqui esperar por você. Meu nome é David. Prazer de conhecê-la — disse, cumprimentando-a com docilidade.

— Você é mágico? — perguntou a menina, cujos olhinhos brilhavam de curiosidade e admiração.

— Não, não sou! — surpreendeu-se com a pergunta — Por que você acha que sou mágico?

— Porque você sabia o meu nome e também porque tem alguma coisa em você que me faz sentir bem.

— É?

— Sim, mas seus olhos estão tão tristes...

David não podia negar que a pequena era uma excelente observadora. De fato, ele estava triste naquele momento. As lembranças de Mayra e do amigo haviam lhe deixado assim. Além disso, ainda sentia muito a partida de sua avó, falecida apenas há uma semana. Foi um golpe duro. De repente, via-se sozinho na vida, sem as pessoas que mais amava. Seus sentimentos estavam profundamente feridos.

— Você está sozinho? — perguntou a menina, com serenidade no olhar.

— Sim, estou.

— Não tem família?

David sorriu, admirado de sua sensibilidade. A presença daquela criança trazia-lhe um inexplicável conforto. E, àquela altura, ele tinha necessidade de conhecer pessoas novas, pessoas diferentes, de todos os tamanhos, gêneros, credos, raças, etc. O que importava era compartilhar sua vida com alguém, não importava por quanto tempo. Queria dar amor e se sentir amado, de alguma forma.

— Não, não tenho uma família — respondeu, depois de um breve silêncio.

— É por isso que você tá triste?

— Sim... Mas faz parte, não é? Vou tocando minha vida em frente, deixo que a vida me leve. Deve haver surpresas boas pelo caminho. É nisso que devo pensar.

— É verdade! Meu pai me falou sobre isso. Desde que comecei a me sentir mal, meu pai me levou para hospital que fica perto daqui, para fazer exames, e o doutor descobriu que eu tinha uma doença rara.

— É? E que tipo de doença é? Você sabe?

— Parece que é um tipo de câncer, alguma coisa assim. Não sei bem direito. Só sei que os remédios que tomo me deixam muito tonta e me fazem vomitar toda hora. E também fizeram meus cabelos cair. Fiquei tão triste. Mas a mamãe me falou que, quando eu melhorar, meus cabelos vão voltar a crescer. Será que é verdade?

— Sim, é verdade.

— Eu estava tão cansada e triste hoje. Por isso, meus pais me trouxeram aqui, mesmo com o dia nublado. Queria ver o mar, as gaivotas, o sol... Só que o sol não aparece faz tempo. Mas não faz mal, um dia ele volta.

— É verdade! Eu sinto saudades do sol.

— Eu também. Mas, na verdade, também pedi ao meu pai que me trouxesse aqui por uma outra razão. É que eu estava esperando um moço que vinha me trazer um boneco amarelo. E tinha certeza que ia encontrar esse moço no píer. Veja! Vesti até o meu agasalho amarelo pra combinar. Aí cheguei aqui e vi você, com esse casaco todo colorido, que eu adorei. Que cores bonitas!

David sorriu. Não foi preciso muito para deduzir que o boneco amarelo havia entrado em contato com a menina durante seus sonhos.


EM BREVE: LIVRO Á VENDA PELA BOOKESS


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 Texto e criação do autor Denis Lenzi, ao utilizar este texto, por favor, não se esqueça de mencionar a autoria.

5 comentários:

Lindalva Siqueira disse...

Queria parabenizar por obras bem qualificadas e que da muita vontade de ler e que continuem com este projeto pois o que importa não são os holofotes,mas sim o que se quis transmitir...
um grande abraços à todos.
Lindalva Pinheiro

LUCONI disse...

Dennis o primeiro texto o da linda bonequinha, Despedida da Inocência realmente me fez chorar, nossa que triste, a perca da inocência, da infância, você descreveu como ninguém poderia fazê-lo, agora o livro o entregador de bonecos, realmente o texto transcrito também é ótimo e nos deixa bem curiosos, parabéns você tem um talento impar, escreve com a alma, beijos Luconi

Denis Lenzi disse...

Lindalva: Obrigado, Linda! Nós, os autores do blog, trabalhemos ainda mais para que o blog e os textos sejam bem qualificados. Também daremos chance aos novos autores para divulgarem suas obras. Cada um tem o seu talento na escrita, seja qual for o seu gênero, e que merece ser lido por todos. :-)

Luconi: Obrigado! :-) Fico feliz que tenha gostando tanto do meu conto quanto ao livro.

Francilangela disse...

Uau, Denis! Está lindo! Arrasou! Parabéns! Beijos!

Marli Carmen disse...

Realmente muito bonito!!! O blog é nota mil...tem autores de altíssima qualidade. parabéns pessoal!!!!
Visitem meu blog e comentem. Estamos juntos !!! beijos!
http://amazoniaumcaminhoparaosonho.blogspot.com/

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