sábado, 17 de setembro de 2011

O mais novo problema antigo: o Bullying


Já que este é um assunto que está tão na moda, vamos comentá-lo. Afinal, ninguém melhor do que alguém que passou cinco anos e quatro meses sendo bulinado, a ponto de detestar este período da adolescência, para tratar sobre o tema.

Adianto que em algumas partes deste texto, vocês, leitores, terão a impressão de ser mais um desabafo do que uma crítica ou comentário sobre o “bullying”.

A maioria das pessoas, quando está nas salas de aulas e presenciam alguém sendo bulinado, não nota que aquela atitude, por mais ridícula que seja, pode causar traumas absurdos em uma pessoa, que provavelmente os perseguirão para o resto da vida. Talvez, por não perceberem isso, dão risada das situações, aprovando e apoiando, de forma tácita, quem pratica o bullying. Ao mesmo tempo, não se dão conta de que aquilo é bullying.


A explicação para este tipo de tratamento entre os jovens é diversa. Mas a primordial, sem dúvidas, é a falta de respeito pela opinião alheia. Opinião esta que transforma o ser humano, que dá a característica dele, que lhe dá personalidade. A mesma opinião que dá sentido à palavra “indivíduo”. Geralmente, quem não segue o gosto da massa, ou seja, quem tem a opinião própria diversa daquela que todos seguem, são as principais vítimas.

Eu estava no primeiro colegial quando subi à sala com uma bandana do Titãs. Eu adorava aquela banda, afinal, pelo menos naquela época (não acompanho muito atualmente), era música de qualidade. E, em uma época em que o funk estava tomando conta com o Bonde do Tigrão, e o Rock mais escutado era Charlie Brown Jr. e CPM22, quem tivesse um gosto fora da modinha era ridicularizado.

Há tempos as vítimas deixaram de ser só aqueles altamente inteligentes, conhecidos como CDF ou Nerds. Basta ser diferente, ficar na sua ou simplesmente ter um gosto diferenciado dos demais para ser ridicularizado. Ou, até, pertencer a uma classe média inferior ao meio em que convive.

No segundo e terceiro colegial, todos tinham celulares. Eu, por não ter condições financeiras de comprar ou ao menos manter um, cheguei a ser apelidado de “mendigo”. Ou, ainda, porque eu não levava lanche e nem comprava um na hora do intervalo, me chamavam de “Etiópia”, em alusão aos esfomeados da África.

Em uma época em que os hormônios estão à flor da pele, é natural que meninos e meninas deixem de lado suas diferenças e comecem a ter, ao invés daquele atrito de quando crianças, atração pelo sexo oposto. E, para os mais descolados, quantidade é o que importa. Já para os mais quietos, os mais tranquilos, que preferem qualidade ou mesmo que não tem desprendimento social para tentar qualquer aproximação com o sexo oposto, resta o bullying.

“O Ariel é bicha, curte uma salsicha. O Ariel é gay, curte sim que eu sei” foi o hit mais cantado por todo o colégio, desde a oitava série até o terceiro colegial. O ápice foi quando tocaram isso na abertura dos jogos interclasses.

Tantas coisas podem soar como brincadeiras etc. Mas há um limite para toda paciência. E, diariamente, este limite era estourado. Contudo, os abusos eram apenas verbais, mesmo porque, quando tentavam evoluir para tapas, socos e chutes, eu revidava e eles paravam.

Naquela época, minha ingenuidade era tamanha que eu não conseguia enxergar atitudes asquerosas por parte de quase todos. Eu sabia mexer bem em computadores. Com 11 anos de idade, formatei uma máquina e instalei sozinho, pela primeira vez, um Windows 95 em um 386, com drivers e tudo. Por causa dessa facilidade com os PCs, o cara mais descolado do colégio fez “amizade” comigo, e me chamava sempre que a máquina dele dava pau. Essa minha aproximação com ele causou certo interesse “em mim” por 90% das meninas do colégio. E eu ainda acreditava em amizade.

Obviamente nem todos que diziam ser meus amigos eram interesseiros. Duas ou três pessoas, no máximo, se salvavam. Eu era muito diferente, eu era esculachado, e só me tratavam bem quando não estavam perto dos outros descolados e quando precisavam da minha ajuda para arrumar PCs.

O acima exposto foi só um exemplo do que faziam no colégio. Eu não saía animado para as aulas, eu não tinha motivação, por diversas vezes quis mudar, mas não podia pela condição financeira dos meus pais, pois o ensino era muito bom e a mensalidade era muito em conta.

A solução para o bullying está muito além do que simplesmente punir o aluno praticante de forma mais severa, porque nem sempre a coisa toda acontece só no colégio. O problema está com a sociedade de um modo geral, com a inversão dos valores, onde o inteligente é esculachado e o tapado é endeusado, na massificação das ideias impostas pela mídia e pelo capitalismo extremista, que fazem você acreditar que se não consumir um determinado produto (música ou programa de TV), está abaixo da “linha do respeito”. O bullying vai ser coisa do passado quando as pessoas, de um modo geral, descobrirem que tão importante quando sua opinião é a do próximo, que deve também ser respeitada.

Brincadeiras são válidas, mas de forma moderada e, principalmente, quando a outra pessoa te deu a liberdade de fazê-la.

Naquela época, eu lia histórias como a do “Porquinho Cor-de-Rosa”, um psicopata americano que de tanto ser bulinado e apelidado de “Pink Piggy”, metralhou todos os abusadores dentro do próprio colégio, e entendia como ele se sentia. Obviamente que eu desaprovava atitudes extremistas, talvez por eu não possuir o perfil de um psicopata. Mas, enquanto eu chorava ou ficava deprimido, pensar em vingança às vezes me aliviava, tamanha loucura que atinge o psicológico de uma pessoa.

Hoje, mais maturo e com uma compreensão mil vezes mais apuradas sobre o comportamento humano, percebi o quanto fui capacho, bobo e, de certa forma, infantil. Sempre acreditei na amizade daquelas pessoas que se interessavam por algo que eu sabia fazer, mas que quando não precisavam de mim me descartavam como um vaso quebrado.

Não tenho raiva, mas pena. Talvez isso tenha me feito superar alguns traumas. Mas, até hoje, penso no que aquelas pessoas que me esculachavam pensariam sobre determinadas vitórias alcançadas por mim, por meu próprio esforço, por minha dedicação. Um pobre derrotado, perdedor, feio e horroroso que não pegava ninguém, que só ouvia músicas ruins, que não tinha dinheiro pra comprar celular ou sequer um lanche na cantina. Cada vez que me supero eu lembro dos tempos de colégio. Tempos odiosos, difíceis, que desejo, acima de qualquer coisa, esquecê-los.

Contudo, apesar de não manter ou querer manter contato com as pessoas daquele lugar, sou muito grato a elas. A todas elas. Fizeram-me perceber o quanto é importante se ter amigos de verdade, e essencial levar a vida de forma sincera, sem falsidade ou interesse.

10 comentários:

Maria Alice disse...

Ariel, é difícil superar a humilhação, que, às vezes passamos. Tem gente, que não mede a consequência de seus atos sobre os outros. Importa que a gente se ame tanto, que nada de ruim, que fizerem ou que disserem possa afetar a nossa vida. Parabéns pelo texto, que contém um belo exemplo de superação! Bjs.

Francilangela disse...

As marcas ficam para sempre.

Juju Porcino Loureiro disse...

ESSE TÍTULO É MAIS QUE VERDADEIRO:
"O mais novo problema antigo: o Bullying"
MINHAS DUAS FILHAS SOFRERAM BULLYING...
COMO SOMOS PAIS PRESENTES, ABERTOS, AMIGOS E ATENTOS CONSEGUIMOS SOLUCIONAR O "CASO"...
PARABÉNS PELO TEXTO E BOM FINAL DE SEMANA!!!

Malu disse...

Um assunto que está em moda e cada um dá a amplitude que quer dar a ele.
Sou portadora de deficiência visual e na minha infância tive muitos apelidos por conta deste problema, mas confesso que estão todos resolvidos sem sequelas nenhuma.
Acredito que tenhamos por obrigação e dever cultivar o respeito pelo próximo e saber aceitar diferenças e conviver com elas.
O assunto é sério e merece olhares apurados, porém acho que haja muitos que fazem o maior estardalhaço desnecessário sobre a problemática.
Há que ser mais simples e menos intencional, como já dizia Bandeira em seu poema.
Abraços

Marli Carmen disse...

assunto muito sério!!

Maria disse...

Excelente texto, é um assunto que muito me preocupa e falo vezes sem conta com o meu filho para que se algo desse genero acontecer com ele, ele me diga e assim podermos agir. Infelizmente cada vez mais o bulling é uma triste realidade.
Bom domingo.
Beijinhos
Maria

Marli Carmen disse...

Gente. Estou sorteando o livro da grande escritora Adriana Vargas, lá no meu blog! Aproveitem!!!

Raíssa Soares disse...

Sofremos bullying o tempo todo. Do mundo! Obrigada por sua visita no devaneios. Tem novo post. Abraço!

M@ria disse...

Podemos prometer atos,
mas não podemos prometer sentimentos…
Atos são pássaros engaiolados;
sentimentos são pássaros em voo.”

- Mário Quintana.

Bom Domingo prá voce! M@ria

Anônimo disse...

Acho que uma boa educação familiar, alicerçada no respeito às diferenças, é o início de qualquer combate á essa mazela social.

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