sábado, 10 de março de 2012

Quebrando rotina - R.S.Merces



Era tão fácil para ela acordar todas as manhas por volta das seis e meia e preparar-se par o dia que nem sentia mais os efeitos do sono. Concretizara uma linha do tempo às horas diárias. Após a refeição matinal caminhava exatos um quilometro ao lado da amiga de infância. Não era de sua índole praticar exercícios, todavia com a idade avançando, problemas surgiam por todo o corpo e lhe foi recomendado. Tantos eram os anos de convivência com a vizinha/amiga que a efervescência dos assuntos joviais perderam-se nas memórias, restando os fatos de uma vida idosa e por vezes solitária. Quando paravam para falar do passado extrapolavam os horários estabelecidos e preferiam fazer dos sábados momentos de recordação. Fora isso a rotina se resumia a caminhada, volta para casa e preparo do almoço para os netos e as variações se davam na parte da tarde. Segunda tinha café na casa da vizinha número dois, destacando o detalhe que faziam um café natural com os grãos colhidos na chácara do João comerciante da esquina. Nas terças as amigas da rua se reuniam para fazer tricô e fofocar um pouco sobre a vida alheia. Quarta era dia de natação, nas quintas revezavam para rezar o rosário, sexta ensaiavam para o coral da missa dominical, sábado viajavam para o interior, normalmente iam à chácara de João e domingo iam à celebração eucarística e à tarde resguardavam para si mesmas. Assim viviam as vizinhas sincronizando seus horários na pacata sobrevivência.
Em um sábado de aleluia sentaram embaixo de pé de laranja da chácara de João. Ele veio a ter-se com elas quando a conversa embalava os anos cinquenta e aquela pelas qual comecei a narrar dizia sobre suas paixões. Ela disse de seus dias de glória embalada em músicas românticas e deitada no colo de um garoto forte. Quiseram saber todos os detalhes e a noite fria aos poucos era aquecida de risadas.
Na manhã todas pareciam garotas de ressaca com olhos inchados e dores de cabeça. Perderam a hora para deitar e fora um sacrilégio acordar às cinco para não atrasarem os cânticos do início da missa. Elas se reuniram na porteira a espera do ônibus e ficaram estacadas ali por mais de cinquenta minutos sem sinal da condução. As notícias que chegavam diziam que os funcionários da empresa de transporte estavam em greve. Não lhes restaram alternativas a não ser caminhar estrada afora acenando para os carros que levantavam poeira. Eram seis e João e por ali não passavam carros capazes de levar todos. Nos primeiros metros preocuparam no que seria da celebração da páscoa, o que sussurrariam delas e desejavam no olhar mais na cara do padre. A caminhada transcorria sua uma hora e meia e uma chuva caiu sobre elas, alertando ainda mais as lembranças da juventude. Não existiam regras e muito menos uma rotina pacata. Riram tanto quanto podiam e perderam o fôlego na subida de um morro. Uma delas caiu revelando ao único homem suas curvas secretas debaixo da saia longa. Riram ainda mais, vivas em esperança.   



Texto e criação do autor, ao utilizar este texto, por favor, não se esqueça de mencionar a autoria.

Um comentário:

Rubens Conedera disse...

Lindo texto, maravilhoso! É uma comemoração à vida, à juventude. Parabéns Renan!!!

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