domingo, 13 de maio de 2012

Três desejos

Eu atualmente estou resgatando de antigos cadernos alguns contos de minha adolescência. A maioria já deve ter percebido que era uma grande fã de contos de terror. Esta história eu ouvi quando era pequena e recentemente tive outra versão recontada por uma amiga de modo que não sei se trata-se de uma lenda ou de algo já escrito por outrem. Parece muito com aquelas historietas que são contadas nos catecismos. Mas vamos lá...
Havia um lavrador cuidando de seus afazeres quando, por algum milagre divino, o menino Jesus e São Pedro desceram à Terra. Apesar de suas obrigações, o lavrador imediatamente largou a enxada e se pôs a brincar com o garoto, indiferente aos problemas que aquele pequeno feriado causaria para seu minguado orçamento. 
A criança tanto riu, tanto se divertiu, que, chegada a hora de ir embora, quando São pedro coçando a sua barba branca deu o toque de recolher, virou-se para o camponês e disse:
- Por causa de sua bondade e da alegria que me proporcionou, lhe concederei 3 desejos. 
- Não carece de me dar tanto - disse o homem simples - eu gostei muito de brincar com o seu menino.
- Mesmo assim - falou sorrindo - quero lhe presentear com três desejos. Sabe o que vai pedir?
O camponês tirou o chapéu calejado de sol, passou a mão pelo rosto suado e ficou por momentos em alguns pensamentos. São Pedro, como quem não queria nada, se aproximou e sugeriu:
- Pede o céu! Pede o céu!
Mas o homem disse:
- Em primeiro lugar eu queria poder ver a morte.
- E qual é o seu segundo pedido?
São Pedro falou de novo:
- Pede o céu! Pede o céu!
Mas o homem disse.
- Eu quero que todas as vezes que alguém se sentar em minha cama, esta pessoa só possa sair quando eu mandar.
- E o terceiro? - Perguntou o Menino Jesus.
E São Pedro, meio desesperado:
- Pede o céu! Pede o céu homem!
- Eu quero que todas as vezes que alguém se sentar em minha cadeira, que esta pessoa só possa sair quando eu mandar.
A criança divina bateu as mãos, achando divertido os pedidos do camponês e os concedeu. São Pedro ficou tão irado pelo homem ter desdenhado a chance de ir para o céu sem escalas, que catou o menino pela mão e subiu aos céus sem dizer palavra.
O lavrador voltou para a sua casa e pediu para seu filho mais letrado escrever uma plaquinha onde se lia "Dôtor Tião". Apesar de achar "maluquices" de seus velho, o menino obedeceu e logo, todos os passantes viam, apesar de não entenderem o que estava acontecendo, a placa em frente da cabana e ficaram curiosos sobre o novo médico. Mas em terra de cego, quem tem um olho é rei. Pela alta carência de doutores na região, logo começaram a pedir o auxílio do novo médico que, milagrosamente, sempre acertava em suas receitas. Quando ele aconselhava o chá, todos já se sentiam melhores, pois sabiam que o doente se salvaria. Mas quando fazia o pai nosso, o desespero do luto caía sobre  a casa e o papa defunto já tinha o trabalho encomendado.
Na verdade, tudo o que o novo doutor fazia era constatar se a morte estava presente ou não. O resto era passar os mesmos chás que tinha aprendido lá com sua mãe. A fama do bom médico se espalhou pela região e ele prosperou, se tornando muito rico. Acabou se mudando para uma casa grande, mas fazia questão de que a cama e a cadeira não fossem trocadas. Aquilo foi visto pela família como uma excentricidade e todos acataram os desejos do chefe da família.
Assim levou a vida por longos dez anos quando, finalmente, chegou a sua vez de ser visitado pela indesejada.
Viu a morte entrar em sua casa e a cumprimentou jovialmente. Ela muito estranhou ser recebida com tanta gentileza. Já havia reparado naquele que parecia poder vê-la e tinha agora suas suspeitas confirmadas.
- É chegada a sua hora. - Disse simplesmente.
- Muito justo - falou o então doutor. - Vivi a minha vida, tive os meus filhos e conheci meus netos. Irei sem problemas para o outro mundo. Mas antes, gostaria de encomendar a minha alma com um pai nosso.
A morte deu de ombros.
- Está bem, mas seja rápido. Tenho muito o que fazer.
Ele se ajoelhou ao lado da cama e se pôs a rezar, bem de-va-ga-ri-nho...
Lá pela metade da reza, passada quase duas horas, a Morte se cansou de tanta lengalenga. Não se atrevendo a interromper a oração, acabou se sentando na beiradinha da cama. Nem bem encostou nesta, se viu presa.
Esperneou, xingou, implorou, mas o ex-camponês não a liberou. Depois, cansada e indefesa, perguntou:
- O que você quer para me soltar?
- Que a senhora não venha me buscar enquanto eu não a chamar.
- Está bem.
Satisfeito, o homem a soltou e a morte desapareceu. Desde então, levou uma vida tranquila, exercendo sua profissão por vários anos. A Morte, por sua vez, todas as vezes que o via, se sentia insultada. Decidiu, finalmente, dar uma lição no velho. Além do mais, já estavam cobrando a alma dele e ela não tinha como levá-la, pois acabara ficando com medo daquele humano.
Desceu às profundas do inferno e, pedindo audiência com o demo em pessoa, explicou para ele a situação e pediu-lhe que ele fosse buscar o espertalhão, mas antes, avisou-o para que não se sentasse jamais na cama, pois esta era mágica.
O diabo ficou feliz pela oportunidade de conseguir uma alma de graça e subiu à Terra, indo de encontro ao infeliz.
Assim que abriu a porta e deu de cara com o chifrudo em pessoa, o pobre quase que morreu de verdade. Ainda mais quando o vermelhão meteu o dedo em seu rosto e disse com sua voz subumana:
- Você é meu!
Tentando recuperar o sangue frio, o velho deu um sorriso torto e disse:
- Tudo bem, seu tinhoso. Mas antes eu quero rezar um pai nosso.
- Nem adianta tentar este truque comigo - rio o diabo, pulando nos cascos - pois a morte já me avisou de seus ardis! Além do mais, para onde você vai, os pais nossos de pouco te adiantariam.
O médico pareceu ficar conformado.
- Bem, se não me resta nada além de acompanhá-lo, então eu irie. Mas antes, eu tenho uma excelente cachaça aqui e gostaria de convidá-lo para um trago.
Nem é preciso se dizer que diabo que é diabo nunca nega um bom trago. O homem chamou a esposa que quase desmaiou ao ver o demo em sua própria casa e pediu que ela lhe trouxesse os copos e a garrafa de caninha que ele guardava para ocasiões especiais. A mulher obedeceu. Arrumou a mesa e trouxe a garrafa, fazendo a língua da besta estalar de sede. Tão logo se viram a sós, "o dos cascos" encheu o caneco e se acomodou na cadeira. Assim que se sentou, se viu irremediavelmente preso. Falou tantos palavrões e impropérios, xingou a deus e o mundo e mesmo assim, estava irremediavelmente preso à cadeira.
Rindo, o velho espertalhão pegou um pedaço de pau e deu uma tremenda surra no tinhoso. Prosseguiu com esta judiação constante por vários anos, de modo que o pobre diabo já não aguentava mais de tanta pancada. Cansado de ouvir os lamentos do sujo, o carcereiro disse:
- Eu vou soltá-lo se prometer uma coisa. 
- Qualquer coisa! Qualquer coisa!
Sentindo a verdade do desespero nas palavras do rei das mentiras, soube que ele já estava no ponto.
- Dede que você nunca aceite a minha entrada no inferno.
- Aceitar você? Eu nunca mais quero te ver na minha frente, nem pintado de ouro!
Satisfeito, soltou o demo que voltou para as profundas no mesmo momento e nunca mais teve notícias dele.
O tempo foi passando e o homem foi se cansando da vida. Já tinha bisnetos em idade de casar e não havia coisa que não tivesse feito na vida. Não tinha arrependimentos. Achou que era hora de descansar. Sua esposa há muito já se fora e sentia saudades dela. Se despediu dos familiares e chamou pela morte.
Esta chegou, muito temerosa, ainda mais depois que soube do que acontecera com o diabo. Mas o velho se deixou levar para o além sem causar problemas.
Chegaram às portas do céu e lá encontraram São Pedro. Tão logo o santo botou os olhos no homem, reconheceu-o e disse:
- Ah! Não, isso não! Não quis pedir o céu quando teve chance e agora não vai entrar aqui de jeito nenhum! Porque não me ouviu? Pode fazer o favor de levar ele pro inferno, dona morte, que é lá que ele deve ficar!
Mal disse estas palavras, uma voz, vinda das profundezas, cortou os ares e lá de baixo, entre as labaredas o diabo gritou a plenos pulmões, gesticulando com a mão:
- Aqui ele não entra!
E foi assim que, não restando uma opção para São Pedro, ele permitiu a entrada do camponês no paraíso. 

2 comentários:

J.C.Hesse disse...

Tenho que lhe dizer, até imaginei, lá pelo meio da estória, que o final acabaria sendo esse. Mas sinceramente... tive que ler até o final, o camponês engodou todos. Muito bom o texto, o personagem foi criado na simplicidade e sem o egoísmo de pedir vida eterna.
Parabéns!!!!

Fabiana Cardoso disse...

Camponês esperto! Muito bem contado Gislene!

Fabi

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