domingo, 1 de julho de 2012

CRENÇAS

                Quando ele surgiu caminhando por sobre as águas do rio São Francisco muitos não acreditaram nos próprios olhos.  Devia haver uma explicação científica para o fenômeno. E o sujeito nem aí. Caminhou até a primeira padaria e pediu um pão. Depois, na porta desta começou a multiplicá-los e distribuí-los.
                Aí já era demais. Isso já era subversão da ordem pública. Distribuir pães de graça bem na frente da Padaria que pagava um zilhão de impostos era uma verdadeira afronta. Enquadraram-no na lei de pirataria pela tal multiplicação de pães e o enviaram para o xilindró.
                Com toda a diplomacia policial entrevistaram o sujeito para ver em qual banda ele tocava. “Na hora do sapeca o ia ia” como diria o Bezerra da Silva o sujeito ficou lá, mudo, com cara de quem nem tava aí. E como cada hematoma desaparecia por si só a cada pancada mesmo os oficiais mais deletos se cansaram.
                Para piorar a história vazou para a televisão bem em época de escassez noticiaria. Era o que faltava. Legiões de repórteres se juntaram aos poucos que haviam presenciado os tais milagres na porta da delegacia. Preocupados com o anão dos direitos humanos e com a visibilidade política do caso, soltaram o sujeito que foi recebido com alguns vivas e um mar de microfones.
                Nada do sujeito falar. Ergueu uma mão e abriu aquele mar de gente como se este fosse o mar vermelho e foi caminhando tranquilamente. No entanto, nunca subestime a necessidade de ibope. Um carro parou no meio fio e um bando de homens o enfiaram do banco de trás saindo em disparada.
                Levaram-no para aquele programa da tarde onde uma repórter se pôs a perguntar sobre o céu e a terra e nada do sujeito responder. Desesperada com o gráfico que caia vertiginosamente a mulher, desesperada, praticamente o pegou pelo colarinho e lhe deu um safanão enquanto gritava:
- Mas porque você não me responde?
                O sujeito deu uma piscadela para não dizer que a havia fitado com toda a sua fleuma.  Se levantou, deu uma batidinha na roupa amarrotada e comentou antes de desaparecer em um efeito muito tosco que qualquer pessoa pode fazer hoje em dia com uma filmadora de celular:
- Eu não acredito em humanos.Texto e criação do autor, ao utilizar este texto, por favor, não se esqueça de mencionar a autoria.

2 comentários:

Fabiana Cardoso disse...

Bem elaborado, parabéns Gislene!

abraços Fabi

J.C.Hesse disse...

Hahahahaha....muito bom!

Abraços,
J.C.Hesse

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