terça-feira, 23 de agosto de 2011

Um crédito à Justiça, seja mundana ou divina



O que você faria se fosse colocado à uma prova de fogo quanto ao domínio de seus sentimentos? Pois é, esta é uma história que aconteceu comigo, há 3 anos. Até hoje me lembro de cada fato, de cada detalhe, de cada cena. Cada expressão corporal e facial ainda está impregnada em minha mente, me assombrando como fantasmas mesquinhos que penam por apego às coisas materiais. Amor, felicidade, dó, tristeza, ódio. Cada um destes sentimentos provados em sua forma extrema.

Eu tenho uma filha. Motivo de minha luta. Motivo da busca de minha vitória. Por minha filha eu vivo, trabalho e sonho. Faço de tudo para que ela construa uma base bem estruturada para ter um futuro digno e repassar isso à família. Hoje ela tem 11 anos de idade.
Quando ela tinha 8 anos de idade, a empresa onde eu trabalhava foi vítima de um golpe financeiro e forçada a fechar as portas, demitindo mais de 230 funcionários. A barra apertou por algum tempo, de modo que precisávamos cortar alguns gastos – inclusive os essenciais. Por conta disto, nos livramos da TV à cabo, internet banda larga, celulares pós-pagos, escola de inglês e teatro da minha filha. Mas o mais difícil mesmo foi ter que mudar a escola dela também. Escola de renome, mas de valores que não estavam condizendo com aquela situação financeira pela qual eu estava passando. Foi preciso transferi-la para uma outra escola.

Nos primeiros dias de aula, a pequena aparentava gostar do ambiente, dos colegas e das professoras. Com esta rápida adaptação dela ao ambiente, eu e minha esposa ficamos tranquilos quanto a isso, cogitando, inclusive, uma possibilidade de deixarmos nossa filha naquela instituição de ensino de forma definitiva.

Com quase tudo resolvido por ora, comecei a me preocupar com minha vida profissional. Consegui enfim um emprego em um conhecido supermercado. O salário era bem inferior ao que eu ganhava como Gerente naquela outra empresa. Porém, com os benefícios, dava para segurar a barra até encontrar um emprego melhor.

Trabalhando todos os dias, não tive muito tempo para perceber que minha filha estava muito calada nos últimos dias. Calada demais. Não conversava mais com sua mãe. Não conversava mais comigo. Tinha medo de sair na rua, de atender o telefone, até de se aproximar das janelas. Fui perceber algo de errado quando ela recusou-se, mesmo diante de repressões, a ir à escola.

Eu e minha esposa conversamos então com as professoras e responsáveis por ela, para sabermos se havia algo de errado. Elas notaram que minha filha havia ficado muito quieta nos últimos dias, e que uma vez estava chorando, mas não sabiam do que se tratava. Tentamos então saber diretamente dela, mas ela não falava absolutamente nada. Apenas havia cedido e concordado em voltar a frequentar a escola.

Era fim de tarde e ela brincava no quintal dos fundos de casa. Eu e minha esposa estávamos concentrados nos cálculos de ganhos e despesas mensais. Até que notamos que nossa filha estava quieta demais. Fui então ver o que havia acontecido.

Quando cheguei ao quintal dos fundos, que tinha um muro voltado para a rua de trás, fiquei completamente estarrecido e perplexo. Minhas pernas bambearam, eu perdi noção de tempo, de espaço, de tudo. Minha filha, aquela coisinha que eu protegia e fazia de tudo pra que crescesse de forma digna e decente, estava sem as calças e sendo molestada por um indivíduo que meu cérebro não viu diferente senão um demônio. Um demônio que usava uma criança, apenas uma criança, para saciar sua fome e seu desejo profano, sujo, corrupto e corrompido. Um demônio que ao olhar para minha face indescritível, a qual figurava a fúria, desesperou-se e tentou correr, sendo traído por suas calças baixas que o derrubaram no chão.

– Não bate em mim não, tio! – implorou o desgraçado ao ser imobilizado por meus braços.

Eu olhei no fundo dos olhos frios e malignos daquela criatura. Sua face jovial escondia a identidade de um monstro, completamente tomado pela psicopatia. Ou apenas um fruto do meio onde ele provavelmente tinha crescido. Naquele momento, um sentimento me dominou de forma inexplicável, sem o menor sentido. Dó. Muito dó.

Baixei os punhos fechados e não bati no desgraçado. Minha esposa chamou a polícia que chegou em poucos minutos. Fomos nós quatro – eu, o delinquente, minha esposa e minha filha – e minha cunhada para a delegacia. Lá, descubri que a face jovial do rapaz não ultrapassava os 14 anos de idade, e que ele já havia praticado tais atos libidinosos com minha filha dentro do colégio onde ela estudava, ameaçando matar a mim e a minha esposa se ela contasse para alguém.

Depois de todo o interrogatório, o Delegado saiu da sala, deixando-me frente a frente com o marginal. Eu novamente olhei no fundo dos olhos dele, não querendo acreditar no que ele tinha feito com minha filha.

– Por que? Por que você fez isso com ela? Por que justo com minha filha? Por que com uma criança de 8 anos?! – eu perguntava, sem compreender.
– Ela é bem gostosinha – respondeu o rapaz, sorrindo. – A mais bunduda das menininhas, não contive minha excitação!

Minha reação foi igual a de qualquer pessoa com um mínimo de juízo: perplexidade. Minha esposa, que havia deixado minha filha com sua irmã do lado de fora da sala, ficou imóvel ao meu lado, como uma presa hipnotizada por uma serpente que está prestes a dar o bote. O desgraçado aproveitou minha face assustada e meus olhos arregalados para continuar sua imundície:

– Na primeira vez que eu peguei ela, fiquei tão duro que quase comi. Jurei fazer isso da próxima vez. Com bastante cuspe entra rapidinho, sabia?

Ele deu um sorriso maldoso. Eu tentava me controlar, mas minhas veias pulsavam com fúria em meu corpo, aquecendo meu sangue, aumentando a adrenalina. Ele se aproximou e com um tom seco e debochado colocou a "cereja no bolo":

– Eu tenho 14 anos. Sou de menor, não vô entrar em cana. Vou sair daqui e comer ela de novo. E você vai fazer o quê?

Nesse momento eu não hesitei. Não vi a hora em que avancei em seu pescoço, derrubando-o no chão, socando com as mãos o rosto daquela criatura, batendo inúmeras vezes sua cabeça contra a parede, terminando por quebrar a cadeira em suas costas e golpear o pescoço e a cabeça daquele demônio com o pedaço da cadeira que restou em minhas mãos até não ver mais nenhuma reação, nenhum resquício de ar entrando em seus pulmões. Tudo isso aconteceu em menos de um minuto. Tempo o suficiente para eu livrar este mundo daquele ser desprezível.

Os policiais da delegacia me deteram por homicídio doloso em flagrante. Me disseram que eu teria atenuante por injusta provocação, algo assim. Eu não me importava com o que pudesse acontecer comigo depois do ocorrido. O que eu poderia fazer era apenas tentar acreditar na tão esquecida Justiça.

O tempo passou e chegou o dia da minha audiência. Tive que ser julgado pelo Tribunal do Júri. A Promotoria também não tinha muita argumentação contra mim, apenas frisaram o fato do garoto ter apenas 14 anos de idade e provavelmente não saber o que estava falando, mas não conseguiram fazer absolutamente quanto ao fato de ter feito o que fez com minha filha. Eu confesso que por um segundo fiquei em dúvida se seria condenado ou absolvido. Dúvida esta que se dissipou com a unanimidade dos jurados em me absolver. É provável que muitos – ou todos – tenham se colocado em meu lugar. A Justiça Terrena havia finalmente provado sua existência a mim. Não demorou muito e a Justiça Divina também provou que existe: seis meses depois de minha absolvição, fui contratado por uma construtora civil multinacional. O salário não é como o que eu recebia anteriormente, mas é muito melhor que no supermercado, e também me deixa com maior disponibilidade para cuidar de minha filha, que voltou para a escola antiga.

Nada poderá curar o trauma de minha filha. Nada além do tempo. Tempo que esmaecerá essas lembranças sujas e manterá nítida a lembrança de que a Justiça existe e foi concedida à nós.


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Texto inspirado em fatos reais.

Texto e criação do autor, ao utilizar este texto, por favor, não se esqueça de mencionar a autoria.


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ESTE LIVRO SERÁ SORTEADO EM SETEMBRO

Quando a mente fica sem pensamentos durante a noite é sinal de que procuramos algo inexplicável que esteja ao nosso redor. Terror Mental trás uma grande ajuda a quem ama ler contos ou historias de suspense que tem um enredo cheio de mistérios e muito terror. Leia e se surpreenda com os finais mais surpreendentes de cada conto. E lembre-se, o terror mental esta no fundo da sua mente. Terror Mental é uma coleção de contos escritos por Donnefar. Alguns dos contos desta coleção foram publicados separadamente com suas versões originais e também em outras coleções. Este volume trás vários contos diferenciados com o gênero único que é o de horror e um breve suspense em cada um dos contos.

9 comentários:

Pelos caminhos da vida. disse...

Chocante relato Ariel, coloquei-me em seu lugar faria o mesmo que vc.

beijooo.

Anônimo disse...

Eu sou mãe e ai de quem ousar tocar num fio de cabelo dela. Eu faria ainda pior. Eu avançaria nele e o comeria tal qual um leão faz com sua presa, para só assim ele saber o real sentido do verbo comer.

Edna

renatocinema disse...

Que angústia.......que dor........que sofrimento.

anita sereno disse...

ola eu sou mãe e acho angustiante essa historia~
eu viraria bicho para proteger meus filhos
uma da diva única e das mais belas que Deus me deu são meus filhos boa noite beijos

Marcelo Lima disse...

Como tdos os textos ...Incrivel !

Simone MartinS2 disse...

Boa noite...to chocada, pasma, me vi espancando o menino, e porque assim que a justiça o classifica nao e mesmo? Menino, demonio, sei la...mas ficou estarrecida...meu DEUS! Cuido de crianças pequenas e as vi em minha mente no lugar dessa menina...Argh! Sem palavras...terrivel.medonho...Um paria na sociedade, um lixo humano...Mas ainda acredito na punição divina e sei la, chocante mesmo...Bjin

。♥ Smareis ♥。 disse...

Que relato triste, fiquei chocada,nem nem sei o que faria, sou mamãe também, e isso doeu a alma, ardeu o coração.Eu sou calma, mas se mexe com o filho , o ser de mãe se transforma, vira bicho. Beijo!

Smareis

Donnefar Skedar disse...

Todos devemos pensar em coisas que acontece todos os dias, mas quando há relatos assim nos faz pensar ainda mais.

Denis Lenzi disse...

Sem dúvida alguma, o relato mais chocante e infelizmente esse é apenas um dos milhares que acontece ao redor do mundo e nunca vai parar surgir. Algo pra pensar mesmo.

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