sábado, 12 de novembro de 2011

2050 - Legado Virtual


     
      O silêncio repouso sobre a casa me lembrava de tempos volvidos. Não me era estranha essa sensação. Todo domingo estava ali junto a mim e ao meu itinerário de memórias. Tento me esvair e preparar alguma coisa para comer. Laura costuma deixar a comida congelada e pronta para ser levada no mais sofisticado dos aparelhos modernos com funções de descongelar e reparar todos os danos das horas na geladeira. Isso era o que dizia a propaganda repetidas vezes na televisão. Na verdade sempre  odiei comida requentada. Por mais que os anos não tivessem me ensinado a cozinhar uma ótima refeição, eu arriscava um espaguete. Desde que minha cabeça começou a não acompanhar as reuniões familiares, tem sido assim meus finais de semana.
      Entranhado ao sabor do molho de tomate industrializado eu sento no sofá da sala, defronte a grande parede de vidro para o jardim. Em momento como esse consigo refletir como minha vida fora boa e costumo agradecer a Deus. Como se estivessem diante dos meus olhos consigo lembrar da minha infância, quando nada da realidade atual seria imaginado. O mundo transformou-se. Muitos podem dizer que essas modificações nada afetaram em minha vida e meus filhos também sempre enfatizam isso. Eles são super modernos e nasceram em uma era onde as relações interpessoais se modificaram e não mais necessitam de verdadeiros sentimentos. Eu rio do namoro virtual do meu filho mais novo com uma chinesa. Não poderei me certificar de como seria a genética em meus netos. Pelo menos acredito que ainda não criaram uma rede social para o compartilhamento de células reprodutivas.
      Quando eu nasci também já existia a globalização, mas não na escala atual. Por mais,  era um adolescente que amava os livros e vivia sempre com um sobre os braços. Hoje esforço para me lembra como tudo aconteceu, entretanto minha memória não é apta a excessivos exercícios. Devia implantar os clipes que prometem apresenta-lhe um filme de sua vida. Mas ainda existem réstias que formam discretamente um sorriso em meu rosto. É a parte dos meus domingos em que choro de alegria.
      Ao término do almoço eu desço o elevador para, o que anos atrás chamaria de porão, e hoje nomeiam de “Fortaleza T”( proteção contra terremotos), onde guardo um segredo. No amplo corredor reforçado com material resistente a tremores há uma porta, cuja chave mantenho sempre no bolso de minhas calças. Como parte importante do cerimonial, eu entro no recinto vagarosamente e nem mesmo necessito de acender as luzes. Já me é costumeiro os passos e conheço muito bem cada centímetro. Consigo sentir o calor que as prateleiras abarrotadas de livros transmitem a mim. Entre elas o meu caminhar é ditado por lágrimas que vão se formando tímidas nas pálpebras. “No fim está o começo”, fora uma frase que escutara anos antes, não sei de quem, mas que na minha biblioteca significava o começo gravado no fim de minha vida. Ele jazia sóbrio sobre uma mesa desgastada. Somente naquele exato ponto eu me curvava e acionava a iluminação.
      O primeiro computador de minha vida ainda funcionava na “biblioteca secreta nacional”, como assim a denominara. Todos os móveis ao redor pertenciam a outra dimensão e me custaram anos para reuni-los, somente o estofado tivera que se adaptar à idade avançada desse narrador-personagem. Assim, acomodado eu ligo a maquina que lá fora, nos mercados de colecionadores, vale uma fortuna e acesso a Internet. Um avanço que devo tirar o chapéu no quesito velocidade. Em observação declaro aos leitores que crianças na África possuem acesso ao mundo virtual, mas ainda sofrem com os problemas da fome. Em alguns fatores o mundo continua o mesmo. Mas não me é de objetivo relata-los, voltemos ao domingo.
      O link está salvo e é a primeira janela exibida. Determinei assim fruto da escassez de minha memória. Por todas as páginas que eu navego estão um legado que participei anos atrás. Um legado que só permanece vivo para amigos que às vezes entram em contato por telefone. Não sei porque o mantenho distante da minha família e muito menos porque sustento a esperança de receber um comentário. Acho que as prateleiras em carvalho são a resposta. Elas sustentam as provas de histórias inesquecíveis dos escritores que marcaram a vida desse velho que agora escreve.
      É por isso que mantenho a biblioteca na “Fortaleza T”. Como o legado construído por amantes de literatura, as páginas ali existentes permaneceram por anos a fio. Não os perderei como Alexandria perdeu seus arquivos.
      O contador de visitas da página do blog avançou dois números...e mais dois... Meus olhos brilharam e as lágrimas até então contidas se derramam sobre a flacidez de minha pele. – Cinco membros online. A conversa, como não poderia variar, é sobre livros. Por horas papeamos e não me lembro de perder-me na inconsciência.
      Acordo com um forte solavanco em meu ombro. Estou rodeado de minha família que parece tentar entender a cena. Meu filho mais novo curva-se sobre a tela do computador e vasculha entre as palavras, minha esposa observa boquiaberta as estantes empoeiradas e minha filha sorri um sorriso jamais habitado naquela face. Acreditava que tal visita me causaria um ataque cardíaco, mas sabem de uma coisa, eu mandei que todos sentassem no assoalho e lhes contei todos os segredos da “biblioteca secreta nacional”. Quiseram ler os meus livros e de todos os autores nacionais que a compunham. Toda a tecnologia permeada nesse mundo foi substituída pela leitura de páginas e mais páginas.

R.S.Merces              


Texto e criação do autor, ao utilizar este texto, por favor, não se esqueça de mencionar a autoria.

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CANTINHO DO NOVO AUTOR

Encontros na Noite - MIA




Alessander queria se livrar do estranho laço que o unia a uma humana. Ele podia sentir todas as emoções confusas dessa garota. Imaginou que ao transformá-la se veria livre desta ligação. O que ele não esperava era que isso o prenderia a ela eternamente.

19 comentários:

renansouzamerces disse...

Meses atrás quando eu ainda não conhecia o Clube sentia a necessidade de apoio mediante a tantas dificuldades que encontramos no caminho do mercado editorial.
Até que um dia conheci a Adriana e todo esse pessoal que dentro de uma união formam o futuro da literatura nacional.

Esse texto eu escrevi dedicado a vocês e espero que gostem.

Atenciosamente,
R.S.Merces.

Denis Lenzi disse...

Parabéns pelo texto maravilhoso, Renan! A narrativa me agradou muito. :-) Abraços!

J.C.Hesse disse...

É meu amigo, estamos todos naqueles barquinhos de papel, hora em um, hora em outro. Sempre em busca de algo que nos complete.
Obrigado por fazer parte deste time, vamos remando. Valeu pelo texto, ótima contribuição.
Somente mentes brilhantes possuem a capacidade de criar possibilidades infinitas.
Abraços.

Paulo Cesar PC disse...

Parabéns a R.S.Merces pelo maravilhoso texto. O mundo nos dias atuais tem tornado a vida mais fácil por um lado e complicada por outro, afinal, isso criou um grande comodismo na sociedade. Um grande abraço.

Francine Cruz disse...

Parabéns pelo texto Renan e seja bem vindo ao Clube. Sucesso para todos nós!!!

@ Moda e Eu. disse...

Oiii :) mudou a capa do livro? Oo
LEGAL O POSTE, beijocas

POESIA NA ALMA. disse...

Fabuloso! Emocionante! as reflexões são variadas... deixa-nos presos em um emaranhado de fabulosas reflexões acerca da vida e do conhecimento por meio do livro, da valorização nacional etc.

Karine Marinho disse...

Amei o texto!
Beijos,K.
Girl Spoiled

Mia disse...

Amei a nova capa.
A clube sempre ajudando na nossa caminhada.
Obrigada Clube dos Novos Autores!!!

RUDYNALVA disse...

Renan!
Seu texto é de inigualável criatividade e nos transporta a um possível futuro (não tão distante). Bom seria que pudésemos mesmo preservar uma "biblioteca nacional', onde novos autores surgem com idéias maravilhosas!
PARABÉNS!
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com/

Evanir disse...

Um texto maravilhoso de uma grande criatividade
envolvente e emocionante.
Parabéns espero poder adquirir os livros de todos
os novos autores do clube.
Um enorme abraço.
bjs no coração.
Eva

Amandio disse...

Nosss o blog só tem capas bonita e de bom conteúdo parabéns para todos os autores e coordenadores do club
Valeu Adriana!
Amandio

Anna Leão disse...

Adorei o o texto, Renan! Principalmente por ver o personagem que vc criou!
Bjs!

nanuka disse...

Que texto lindo, Renan!

Gostei muito.

Espero que as pessoas deste futuro tenham ainda a sensibilidade das que habitam o nosso tempo.

2050 é logo ali.


Abração!

Ordem do Saber disse...

Com certeza será sempre assim.
Não tem como substituir os livros. É atravé deles que a sociedade se mantém há séculos. Não imagino um fim para eles.

Muito bom seu texto. Parabéns.

Maria Alice disse...

Eu apoio o Clube de Novos Autores! É incrível como ele vai nos tornando autores conhecidos. Estou concorrendo à sorteio de livros.Bjs.

Anônimo disse...

O texto é muito bacana!
Estou divulgando o blog o maximo possivel, sei que juntos podemos chegar bem longe . . . eu tenho fé!
Boa semana a todos!
MARLON DE ALBUQUERQUE.

Nati Caetano disse...

Olá amdados amigos ! Muito bom o texto,figurando a globalização,e o mundo vai em direção da tecnologia avançada,mas de um outro lado gera quase tudo industrializado,espero que a consciência, começe a refletir na preservação do meio-ambiente,não fique só no papel,mas para todas as nações do mundo.Que o capitalismo não pense somente no $, pois a natureza um dia vai cobrar,e já está cobrando.E muitos com fome,como vc citou no Continente Africano.

Parabéns ao Renan e tb ao clube dos novos autores.

Deixo aqui meu carinho e um abraço.Nati

David.H.S disse...

Parabéns pelo texto, achei a sua narrativa muito rica em detalhes. Gostei muito do texto!
Abraços!

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