sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

No elevador






“As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um
homem para um porco e de um porco para um homem  outra  vez;
mas já se tornara impossível  distinguir  quem  era  homem, quem
era porco.”


 
George Orwell, escritor nascido no longínquo ano de 1903, na Índia, encerrou assim o seu consagrado livro “A Revolução dos Bichos”. E foi assim também, equiparando o homem com um bicho repugnante, que Dirce entrou em seu apartamento naquela abafada tarde de verão. Foi direto ao chuveiro, sem se dar ao trabalho de apanhar roupas limpas no quarto. Despiu-se com pressa, recebendo aquele jato de água fria com uma satisfação indescritível. Tendo em mãos um perfumado sabonete líquido de ervas finas, esfregou com grande esforço cada centímetro do seu gracioso corpo. Em pouco tempo, o banheiro foi envolvido pela flagrância suave exalada daquela frenética operação de limpeza. Apenas quando abriu o boxe, satisfeita e refrescada em todo o seu ser, ela finalmente sentiu falta de uma toalha e novas vestimentas. Descalça e pingando pelo piso afora, chegou ao quarto para enxugar-se. Tão logo acabou, quando começava a vestir o sutiã, um pensamento agitou-lhe novamente a mente. Jogou bruscamente no chão a peça íntima e voltou,  a passos apressados, ao chuveiro para um novo banho.
A lembrança daquele homem acompanhava-a agora como um encosto ou caô que teima em ficar. Jamais, em seus 37 anos de vida, topara com um olhar tão lascivo. Literalmente da cabeça aos pés, ele esquadrinhara todos os contornos visíveis e invisíveis que havia nela.
Dirce arrependera-se amargamente de, naquela ocasião, não ter usado a escada para descer os míseros dois andares que separavam o apartamento de Paula, colega de faculdade, do seu. Morava no Apto. 104, bloco B, do Residencial Parque Imperatriz e tinha com a referida moça estreitos laços de amizade, desde os tempos do Ensino Fundamental no Colégio Padre Rambo da Avenida Bento Gonçalves. Haviam ambas, através de um projeto habitacional do DEMHAB (Departamento Municipal de Habitação), adquirido os seus respectivos imóveis naquele condomínio e, como boas vizinhas, visitavam-se quase que diariamente. Naquela tarde quente, por volta das 15h40min, elas tomavam café e assistiam a um DVD quando o celular de Dirce tocou. Era a sua filha de 13 anos, que dividia com ela o apartamento. A menina, bastante ansiosa, pediu com urgência a presença da mãe em casa, pois queria muito fazer um desabafo. Telefonara da casa do pai e prometeu em no máximo meia hora chegar ao condomínio para conversarem.
Dirce ficou intrigada e achou que boa coisa não poderia ser. Seu ex-marido tentara já por duas vezes suspender o pagamento da pensão alimentícia, alegando ter muitas despesas com a nova companheira e os dois enteados. Despediu-se de Paula prometendo voltar em seguida para terminarem de ver o filme, que era bem interessante. Optou por embarcar no elevador, coisa que raramente fazia. Sentiu preguiça e resolveu economizar um pouco o joelho, que andava dolorido pelo excesso de exercícios na academia. Apertou o botão e aguardou vinte segundos, mais ou menos. A campainha anunciando a chegada da cabine móvel finalmente soou e, como de praxe, as portas automaticamente abriram-se para o embarque. Estava vazio e ela, entrando, buscou o botão de n.º 1 para indicar onde desceria. Quase no momento de as portas definitivamente fecharem-se, uma voz masculina , pelo lado esquerdo, gritou:

- Espera! Desce!

Gentilmente, como requer a situação, ela apertou com rapidez o botão AP (Abrir Porta). Entrou então um senhor grisalho, com seus 62... 63... 65 anos no currículo. Tinha dentes alvos como o marfim e, num sorriso um tanto quanto dissimulado, agradeceu com voz desafinadamente aveludada:

- Pô... Se não é tu... Obrigado filha... Tô superatrasado para uma reunião...

Em seguida, com interesse, percorreu o seu olhar de peixe-morto pelos 1 metro e 75 centímetros de Dirce, reparando na sua beleza fresca e primaveril. Tinha ela um jeito todo juvenil de ser, e isto estava impresso na forma como se vestia, andava e sorria. Quando percebeu as “sodômicas” intenções do ancião, ficou embaraçada como uma menina. Nervosa, colocou cinco ou seis vezes uma mecha de seus cabelos ondulados para trás da orelha direita, buscando disfarçar o mal-estar que sentiu. Não lhe dirigiu qualquer palavra nem olhou mais em seu rosto, contudo era-lhe evidente que ele continuava a apreciar as suas curvas bem esculpidas.
Por fim, o recato inicial dela deu espaço a uma indignação profunda, e o seu instinto de autodefesa a fez encará-lo com severidade e sem medos. O que viu, no encontro de olhares, repugnou-a ainda mais. O grisalho, perfumado e bem alinhado em seu traje escuro de sarja, percorria com os seus olhos famintos, um trajeto metódico, com intervalos sincronizados. Seu nariz lembrava um focinho de porco, e a gordura acumulada em seu ventre e pescoço deixava-o ainda mais à imagem e semelhança de um suíno. O tal homem cobiçava-a de cima a baixo, de baixo a cima e depois de cima a baixo novamente. Olhava desde os seus pezinhos mimosos até o agradável feitio do seu rosto moreno claro, de lábios carnudos e olhos grandes. Fazia isso lentamente, com prazer e desfrutando até onde o tempo e a ocasião lhe permitiam. Dirce percebeu ainda um discreto movimento horizontal em sua língua, à medida que passeava a vista impura pelos pés, tornozelos, coxas, quadris, barriga e seios dela. Isso, definitivamente, esgotou-lhe a paciência. E, quando preparava ela uma bofetada certeira, o elevador chegou enfim ao 1.º andar.
Quando a porta reabriu, quis ela, inicialmente, vingar-se, puni-lo ou tão somente xingá-lo. Assim que o perdeu de vista, no entanto, sentiu um surpreendente desânimo. Naquele momento, teve vontade de fugir para um lugar bem distante e não conversar mais com ninguém. Sim, ela sabia que era atraente e por isso recebera já muitas cantadas picantes, mas aquele homem... Cruzes! Tinha algo particularmente sujo e degradado em suas intenções. Sentiu-se profanada em sua condição de mulher inteligente e romântica. Saiu do elevador em direção ao chuveiro. E ele, a passos rápidos, olhando o relógio, deixou o prédio e acenou para um táxi  que vinha vazio pelo outro lado da rua. O motorista fez o retorno e levou-o até a sede da Pastoral da Igreja Católica para a sua reunião de trabalho. Era o Padre Adolfo, que estivera no Residencial Parque Imperatriz para visitar um diácono amigo seu.                                                                                                                                                                                                                                                      


CÉSAR SOARES FARIAS

Texto e criação do autor, ao utilizar este texto, por favor, não se esqueça de mencionar a autoria.

4 comentários:

Renata disse...

Muito legal! É pedaço de um livro? Ou é só um conto? Muito rico de detalhes e descrições.

Pamela Chris disse...

caramba, eu ainda estou chocada. Muito bom, de prender o leitor do inicio ao fim. E eu nem sou chegadaa a um conto (e um conto, n e?).

Rubens Conedera disse...

Parabéns ao autor por sua criatividade. O texto é instigante!

renansouzamerces disse...

Concordo em gênero, número e grau com os comentários acima. Um texto criativo e que nos prende em sua leitura.

Atenciosamente,
R.S.Merces

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