sexta-feira, 30 de março de 2012

Tal qual respirar


Olá, pessoal, minha primeira publicação aqui no CNA!
Esse texto foi inicialmente escrito para o meu Grupo de Dramaturgia, em forma dramática. Mas, a principal exigência do exercício era para cortar totalmente as descrições da cena, construí-la somente com falas. Foi agonizante, mas consegui algo satisfatório. E, no fim, reescrevi o exercício em forma de conto para poder colocar toda a descrição que não fora permitida antes.
Esse foi o resultado :D Espero que gostem!



TAL QUAL RESPIRAR

Já estava lá antes, como sempre.
O efeito desanimador do cenário silencioso – composto apenas pelo triste quadro de duas poltronas e uma mesinha com um relógio digital – não conseguiam lhe causar impacto algum.
Sentada de forma séria, com as pernas cruzadas, meio curvada sobre o bloquinho onde anotava, esperava pacientemente, sem se importar com o piscar incessante do aparelho eletrônico logo ao seu lado.
Quando o horário em vermelho ultrapassou o limite tolerado de atraso, ele entrou. Vestia roupas brancas como ela, mas as semelhanças iam somente até esse ponto. Transbordando aborrecimento em todos os seus movimentos, ele praticamente se jogou em seu lugar, pouco preocupado com sua postura.
Sem tirar os olhos do seu bloquinho, ela deu um meio sorriso, mas não disse nada.
Passou-se um tempo e o silêncio se manteve. Até que, com um inspirar, ela ergueu um pouco os olhos e perguntou solenemente:
Está um belo dia hoje, não?
Não houve resposta.
— Acordar de manhã, com o céu claro, respirar o ar fresco...
Ainda sem resposta, e isso pareceu a angustiar de alguma forma:
— Ora, vamos. Você acordou hoje, não? Não respirou?
O homem se limitou a lançar um olhar cansado para o relógio, como se cada palavra dela o jogasse em um tédio ainda mais profundo.
— Se não, vamos tentar agora. – ela continuou de forma imbatível, largando o bloquinho em suas pernas e fazendo gestos amplos com os braços para incentivá-lo. – Respirar... respirar... respirar... inspiiiiiiiira.... expiiiira... E então?
Em nenhum momento o homem fez menção de acompanhá-la, ou mesmo de que prestava atenção no que ela fazia. Com um suspiro, ele mudou a posição na cadeira e apoiou o rosto em uma das mãos, fixando um olhar distante no relógio.
A mulher, fingindo não perceber isso, voltou ao seu bloquinho e anotou algo pesadamente, com ar de reprovação, murmurando:
— Estamos de mau humor hoje, não? Mas estava um bom dia para se acordar... Como vão as coisas? Está tudo bem? Continua com a alergia nos pés?
Ele fez um mínimo gesto com a cabeça, que soava como uma afirmação, e isso a incentivou a continuar de forma mais animada – embora ele continuasse não lhe dando atenção:
— Minha avó tinha uma alergia assim, mas eram nas orelhas. Tinha dias que ela coçava tanto que elas pareciam que iriam cair, e muitas vezes ela realmente tentou cortá-las para se livrar da dor. Mas nunca teve coragem suficiente... Ela também tinha uma mania estranha de contar todos os passos que dava pela casa, sempre olhando para o chão. Quando os passos não estavam certos, ela refazia o caminho... Quando não andavam certo, ela mandava refazer o caminho... – ela fez uma anotação mínima, deu um suspiro e disse olhando em volta, como se não falasse com ninguém em especial. – Tenho saudades dela... Como era a sua avó? Não tem saudades dela?
— Não conheci meus avós. – ele finalmente se manifestou.
Ela, não captando certo tom de ponto final que ele colocava em sua afirmação, continuou ainda mais empolgada:
— Por quê? O que aconteceu? Eles sofreram algum acidente?! Eu sabia! Sempre consigo acertar! Meus tios sofreram um acidente. Não foi bonito de se ver. Um avião caiu na casa deles e não sobrou nada. Eu tinha saído porque não aguentava mais ouvir minha tia gritando. – ela voltou a anotar no bloquinho enquanto falava, embora seu olhar parecesse ultrapassar os objetos em suas mãos. – Era uma sexta feira, e estava chovendo, e as crianças corriam de um lado para o outro. O volume da TV estava alto porque meu tio queria assistir ao futebol apesar de tudo. Minha tia estava lavando roupa, o bebê chorando, eu estava tentando fazer o jantar, e as crianças gritando e os trovões e a faca na minha mão e a chuva...  – e o resto se tornou um murmuro inaudível.
O homem saiu da sua postura aborrecida e a encarou, absorvendo cada uma das palavras.
Quando se deu conta disso, a mulher parou de anotar abruptamente e olhou de forma apreensiva para frente. Mas toda a sua reação se desfez em segundos, e ela sorriu, como se o momento anterior não tivesse acontecido:
— Está um belo dia, não?
Não houve resposta.
— Acordar de manhã, com o céu claro, respirar o ar fresco... Respira... respira... respira...
Os números em vermelhos mudaram e no mesmo instante um alarme estridente tocou. O homem prontamente se colocou de pé, parecendo satisfeito, e a mulher pegou o aparelho assustada, para conferir:
— Já?!  Não pode ser? Ele está quebrado! – ela ficou de pé também, sem perceber que havia lançado longe o seu bloquinho, e balançava o aparelho nas mãos, como se tentasse descobrir que havia alguma peça solta lá dentro. – Ainda não deu a hora! É cedo! Acabou de amanhecer! O dia está tão bonito lá fora! Nós nem respiramos! A chuva caia e tinha os trovões e as crianças gritavam e o bebê chorava e eu não sabia mais o que fazer e a faca estava na minha mão! Não foi minha culpa! – ela jogou o relógio com força no chão, o fazendo quicar várias vezes e perder suas partes, mas mesmo assim o alarme ainda soava. – Está quebrado! Viu! Está quebrado! Ele já estava quebrado! Estava assim! Não funciona!
As portas se abriram e outros dois homens vestidos de branco entraram. Sem dizer uma palavra, os dois a agarram. Ela, que até então continuava no mesmo lugar perdida em suas palavras, começou a resistir gritando revoltada:
— NÃO FUI EU! NÃO FUI EU! FOI UM ACIDENTE!
E em meio aos berros e o choro, foi arrastada para fora.
Quando os gritos se tornaram ecos distantes e incompreensíveis, o homem recolheu os pedaços do relógio – que finalmente perdera a capacidade de soar o alarme – e despejou em seu antigo lugar:
— O terceiro essa semana...
Então, pegou o bloquinho jogado no chão e arrancou as primeiras páginas que continha rabiscos incertos. Retirou uma caneta do bolso e fez anotações nas páginas em branco enquanto saia de forma tranquila:
— Sexta-feira, chuva, faca... 

Lhaisa Andria

5 comentários:

Cesar S. Farias disse...

O exercício literário da Lhaisa nos proporcionou uma sequência de diálogos que me chamaram a atenção pela clareza e realidade. O final é surpreendente, pois o paciente não era quem eu pensara... Achei bem interessante essa interação do Clube com o Teatro.
Bem vinda e continua mandando mais "exercícios" pra gente ler.

J.C.Hesse disse...

Gostei, foi possível imaginar diversos cenários em que tudo poderia estar ocorrendo. Inteligente e cativante. Gostei! É o primeiro, kkkkk, está aprovada!
Abraços,
J.C.Hesse

P da LAP disse...

Muito bom mesmo! \o/

Cristina disse...

Nossa, Lhaisa! Muito legal seu texto. Me surpreendeu no final.

Ordem do Saber disse...

Muito bom! Parabéns.

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