sexta-feira, 20 de abril de 2012

Sobre um tropeço e a esperança de uma lâmpada sem gênio


Minha vez de novo :D 
Bom, considero isso um semi-conto, porque é mais algo que rabisque do que um conto. Ele faz parte de um conjunto de histórias intituladas Monstrinho, e o primeiro conto desses escritos com o mesmo título está na coletânea Tratado Secreto de Magia Vol 1, da Editora Andross. Acho que a escrita dele ficou meio enrolada, mas dá um efeito para o final, então permanece da mesma forma, sem alterações na primeira escrita.


Sobre um tropeço e a esperança de uma lâmpada sem gênio

Zézinho nunca imaginou que ao tropeçar e cair (de boca rolando no chão) na sua missão de resgatar a bola chutada longe, durante uma pelada entre seus amigos e os moleques do bairro vizinho, iria encontrar em alguma coisa que não era para estar ali e poderia mudar a sua vida.
Ao descer o barranco deslizando, na pressa, foi praticamente impossível parar quando ele avistou aquela elevação em seu caminho e o tombo fora imediato. Então, praguejando com palavras que ainda nem sabia o significado, o menino levantou, meio mancando, e pegou a velha bola parada ali. Porém, ao dar meia volta, se deparou com uma coisa muita estranha.
Parado na sua frente estava algo muito semelhante a um balão, daquelas bexigas compridas que os palhaços usam para enroscar e transformar em bichinhos. Nesse caso, a um homezinho. Mas esse balão, ao contrário de todos os que Zézinho já havia visto, não era de um colorido transparente. Tinha mãos, pés, rosto, barbicha e bigode e ainda usava roupas do tipo que se usa durante o carnaval. Paralisado com a visão, ele se assustou quando o balão abriu um grande sorriso cheio de dentes e exclamou com olhos brilhantes:
- Muito obrigado por me libertar, meu amo e senhor! – então ele fez uma reverência, quase encostando a ponta do chapéu estranho no chão.
- Q-quem é você? – o menino perguntou surpreso.
- Ora, o amo já deve ter ouvido falar muito de mim, afinal – ele olhou em volta, como se verificasse que ninguém mais estava ouvindo e falou baixinho para que ficasse só entre eles – sou um gênio da lâmpada.
Zézinho olhou bem para ele, ajeitou a bola para ela ficar ficara entre a cintura e um braço, coçou a barriga e de uma fungada:
- Gênio?
- Sim, amo. Posso realizar todos os seus desejos!
- Todos os meus desejos?
Isso pareceu surtir algum efeito lá no fundo da mente do menino e, percebendo uma oportunidade, o gênio continuou com o seu currículo verbal decorado enfeitado gestos:
- Mas não sou qualquer gênio da lâmpada, senhor! Sou um dos mais difíceis de achar e não me limito a um desejo, como uma medíocre fonte dos desejos, ou apenas três como um gênio de quinta categoria! Eu posso realizar TODOS os seus desejos! – o homenzinho de balão ergueu os braços bem abertos, querendo dar efeito à dimensão do seu poder.
O menino pestanejou, processando o que ele dissera.
- Então... tem algo que você queira, amo? – o gênio tentou.
O menino olhou para os seus pés descalços – onde o dedão ainda latejava pelo tropeço, – para o seu calção rasgado, para a barriga que tinha ficado toda suja com o tombo por ele não usar uma camiseta, e então para a bola velha e remendada.
- Pode me dar uma bola nova? – ele perguntou, desconfiado.
- Uma bola? – perguntou o gênio, com um careta de descrença.
- É, tipo essa. – o menino mostrou a sua – Mas nova.
- Uma bola, amo? Apenas uma bola?! Eu posso te dar tudo o que quiser! Posso te dar ouro e jóias o suficiente para que o senhor compre quantas bolas quiser! Posso lhe tornar a pessoa mais rica do seu reino! Ou melhor, posso fazer do senhor um rei!
- Um rei?
- Sim, um rei! – o sorriso do gênio se expandiu ainda mais – O maior que já existiu!
- Tipo o Pelé?
- Pelé?
- Sim, o rei Pelé! – ele mostrou a bola novamente para que o gênio entendesse.
Com um grande suspiro derrotado, o gênio concordou:
- Tudo bem, meu amo e senhor, seu pedido é uma ordem, vou e dar uma bola nova... Mas, primeiro, preciso que o senhor assine um contrato comigo. – e, com um estalar de dedos, o gênio fez aparecer diante de si um grande papel antigo, todo rabiscado com letras estranhas e que tinha no cabeçalho letras garrafais formando ‘CONTRATO MÁGICO’.
- ...Eu não sei ler. – informou Zézinho, de um jeito disfarçado, já que na verdade sabia ler um pouco, mas tinha preguiça só de olhar para aquele monte de frases juntas.
- Ótimo!... Quer dizer, é uma pena, amo. – o gênio lamentou – Mas não seu preocupe! Aqui só diz coisas formais que precisam ser mencionadas e aceitas pelo meu amo antes que eu possa ter liberdade de usar meus poderes. Sabe, exigências do meu departamento, que tenho que entregar para o pessoal do RH. Coisas como ‘Eu aceito o contrato com o meu gênio e, como humano, lhe dou total permissão para usar seus poderes em meu benefício, prometo não falar sobre ele com mais ninguém e também lhe não vou impedi-lo de dominar e escravizar meus semelhantes com seus magníficos poderes e lhe dou permissão total para colocar em prática seus planos de dominação mundiais’... Sabe, coisas básicas do tipo que se precisa ter em um contrato comum de prestação de serviços.
- Hum... – disse Zézinho, preocupado com a movimentação do campinho lá em cima, onde os outros meninos já estavam incomodados com a demora dele em trazer a bola.
 - É só assinar e terá a sua bola nova, amo. – com outro estalar de dedos uma pena tinteiro surgiu na frente do contrato.
Então, esfregando o nariz e colocando a bola velha nos seus pés, o menino pegou a pena e escreveu o seu nome com a sua caligrafia torta.
- Prometo que não irá se arrepender, meu amo! – o gênio recebeu o contrato assinado e o guardou com todo o cuidado dentro do seu chapéu. Então estalou os dedos mais uma vez e no lugar da bola velha e remendada surgiu uma novinha em folha.
Maravilhado, o menino a pegou nas mãos e a segurou forte, antes que o gênio mudasse de idéia e a tirasse dele.
- Então, amo, guarde minha lâmpada com cuidado. Quando precisar de mim é só esfregá-la que aparecerei. Enquanto isso... tenho assuntos as tratar. Com licença, amo. – e com outra grande reverência e um estalo mais forte, o gênio desapareceu.
Zézinho olhou em volta, mas não havia mais sinal algum do homenzinho de balão.
- Ô, Zézinho! – um dos meninos gritou de lá de cima do campinho – Foi fazer essa droga de bola?!
Então, erguendo a bola nova como um prêmio, o menino correu de volta para a brincadeira, subindo o barranco aos tropeços, e gritando contente:
- Olha o que eu achei lá embaixo!
E a lâmpada, agora vazia e sem ter como conter o gênio mais ardiloso que já fora sentenciado e condenado a permanecer em um canto remoto do mundo durante milênios, ficara esquecida no meio do terreno baldio, somente com a esperança de que um dia o menino se desse conta que ele fora o responsável pelo que aconteceria dali por diante e a viesse a procurar... só na esperança.

Lhaisa Andria.

2 comentários:

Fabiana Cardoso disse...

Genial Lhaisa, literalmente! Um gênio do mal livre por aí, rende uma boa estória com certeza!

abraços Fabi
www.fabianacardosoescritora.wordpress.com

J.C.Hesse disse...

Um pequeno conto, mas com grande inspiração.

Abraço, J.C.Hesse

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