domingo, 15 de abril de 2012

Terror

Já que tivemos uma sexta feira 13, decidi falar um pouco sobre o gênero literário de terror. Em linhas gerais, escrever sobre terror é algo relativamente fácil. Basta escrever sobre o maior dos medos humanos, a finitude da vida. O problema é que aquilo que parece fácil em um primeiro momento, talvez não seja tão simples. O medo está atrelado ao desconhecido. E para nossa felicidade ou infelicidade, vivemos na era da informação. Isso significa que mesmo que Edgar Alan Poe arranque os dentes de Berenice e descreva toda a cena fazendo o suor brotar pelos poros do leitor, este tipo de narrativa só irá funcionar uma única vez. Qualquer tentativa de história semelhante irá se mostrar desprovida de graça. Talvez seja por isso que ultimamente o gênero de terror do cinema tenha se focado mais no público juvenil. Não é fácil para um escritor assustar um adulto. Na verdade, o que conta mais para um escritor de terror é não revelar o truque antes do fim. Como o bom mágico, deve encantar o leitor com palavras tortuosas e descritivas que aumentem a tensão num crescendo sem dar, no entanto, dicas suficientes para se saber se aquele temor mais inconfesso irá se tornar um fato. Steven King não foi um êxito ao ter suas obras transportadas para o cinema justamente porque suas narrativas, ao se tornarem visuais, acabavam sendo demasiadamente óbvias pois não podiam contar com a imaginação do leitor para preencher as lacunas. Estava tudo ali, preto no branco, sem aquela preciosa descrição interna presente em todos seus personagens. Para quem não leu, por exemplo, "Cujo", uma história que fala sobre a fobia por cães levando o fato ao extremo, dificilmente ficaria tenso ao ver mãe e filho presos no carro por quase metade da história se esta estivesse sendo contada na tela grande. Na adaptação para o cinema, o terror psicológico é bem menos eficaz do que o que conta com personagens de terror concretos como em "Drácula de Bram Stoker", "O retrato de Dorian Gray", "O médico e o monstro" ou "Frankenstein". O personagem de terror ainda tem um atrativo que as situações de terror  não tem: ele dá um rosto e forma para aquilo que nos assusta. Não é a toa que a mãe canta para seu filho pequenas canções de terror para que este durma tranquilo. O boi da cara preta é bem menos assustador do que aquele vazio sem forma e sem nome presente na escuridão. Existe uma parte interessante com relação ao medo, porém. Mesmo ele estando sempre atrelado à ideia da dor, da morte e da perda, ele muda sua forma de acordo com a sociedade em que vive. Afinal, alguns anos atrás ninguém saberia dizer porque é que existe uma nova fobia em se ficar longe do celular. E essa fobia acaba se justificando como no caso de pessoas soterradas em terremotos ou acidentadas em lugares ermos que só conseguem ajuda por conta do precioso aparelhinho. Então, se você for pensar em uma história de terror, que tal pensar em quais são as novas formas de medo que estão surgindo dentro de nossas neuroses? Talvez aí seja possível recontar algo que assuste a todos, crianças e adultos. 

Um comentário:

J.C.Hesse disse...

É uma perspectiva interessante, o escritor do gênero de terror, assim como quase todos os gêneros literários precisam estar olhando para o mar e não apenas o curso do rio. Boa dica.

Abraço,
J.C.Hesse

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