domingo, 20 de maio de 2012

Em vão

Bem ali no fim da rua, entre a casa verde e os fundos da imobiliária, existia um vão. Eu reparei nele no meu primeiro dia de aula. Minha mãe me puxava pela mão enquanto eu tentava ser suficientemente forte para carregar a pesada mochila quando reparei nele. O vão. As primeiras passagens eram rápidas. Não dava para avaliar muito bem o que tinha ali. Por isso, quando finalmente, dois anos depois, chegou o dia de caminhar com meus próprios pés, sozinho, até o grande prédio de concreto que ficava a duas quadras de casa eu pude finalmente preparar-me para analisá-lo. O problema é que neste dia eu acabei perdendo a hora e tudo o que pude fazer foi passar correndo por ele. Os dias seguintes alcançaram a sua normalidade e finalmente consegui me adiantar alguns minutos para lhe dar a devida e prometida atenção. Aquela manhã estava fria. Havia poucas pessoas na rua e uma fina névoa cobria o espaço enregelando os ossos. Com as mãos metidas nos bolsos da jaqueta caminhei até ele. Era estranho pois o vão descia até o chão e se prolongava pela calçada até desaparecer na rua. Não me lembrava dele invadir a minha passagem. Mas também não me lembrava de ter voltado meus olhos para o chão. Talvez sempre tenha estado ali em minhas idas e vindas. Debrucei-me nas pontas dos pés para espiar naquele pequeno espaço entre as paredes. Somente um fundo escuro e vazio. Não se podia discernir nada. Era estranho. Espremi os olhos tentando vislumbrar algo mas de repente, vindo de suas entranhas, um forte vento gelado acertou-me o rosto como uma bofetada jogando meus cabelos para trás. O deslocamento de ar ressoou em meus ouvidos e dentro daquele baixo silvo eu pude discernir claramente o som do meu nome. Senti um calafrio percorrer o corpo e dei um salto para atrás olhando para os lados. Não havia ninguém na rua. O som viera mesmo do outro lado? Ou eu apenas o imaginara? Sai correndo em desabalada carreira.
Passei muito tempo analisando aquele vão. Todos os anos de estudo praticamente. Mas, como nada mais de extraordinário acontecesse fui preenchendo esta curiosidade com os eventos da vida. Eventualmente ainda diminuía o passo quando passava por ele e o verificava com o canto dos olhos. Sempre tomava cuidado para não passar por cima dele quando este se estendia pela calçada. Sim, porque, algo que eu reparara é que ele era meio elástico. As vezes restrito à parede. Outras indo até a beira do asfalto. Como se aquele apêndice fosse uma fina e escura língua. 
Hoje eu acabei voltando para casa muito tarde. Dia de balada. Meu primeiro dia de balada. Os amigos haviam me acompanhado até a esquina. Mas como morassem em outra rua, perfiz aquele trajeto sozinho. Estava meio distraído por conta das cervejas escondidas e da garota com a qual eu tinha ficado. Por isso quando vi, já estava na frente do vão. Ele estava bem maior naquele dia. Talvez fosse apenas um efeito do poste de luz amarelada. Passei com a agilidade supersticiosa que sempre me acompanhara mas meus olhos captaram algo diferente lá no fundo daquele breu.
Parei há alguns passos tomado pela curiosidade. Era uma luz? Meio a contragosto, voltei e com cuidado enfiei o rosto em frente ao vão. Lá no fundo existia um vão iluminado e eu pude perceber um movimento lá dentro. O que seria? Existia outra coisa de diferente. Ele que antes não passava de algumas polegadas estava bem mais largo agora. Quase podia imaginar-me com algum custo esgueirando-me ali por dentro. Como aquela luz ao fundo era quase como um estreito corredor.
- Quem está aí? - Gritei.
Minha voz reverberou pela rua. Olhei em volta assustado. Gritando àquelas horas na rua. Eu era algum tipo de louco? Só faltava algum dos conhecidos de meus pais me virem. Minha mãe tinha uma vida social suficientemente vasta para me atormentar por horas seguidas. Virei o corpo, envergonhado, na intenção de ir embora. Mas congelei meu movimento.
A figura que estava do outro lado do vão, numa atitude que eu admirava como temerária porém corajosa, vinha se esgueirando com bastante cuidado. Pensei em gritar-lhe que não viesse. Que aquele pequeno espaço era instável e que talvez, ele estivesse correndo o risco de se ver emparedado antes mesmo de alcançar o meio. A voz falhou no entanto. De que adiantaria? Ele já havia avançado para quase a metade do caminho. Mesmo sendo incapaz de vê-lo, percebi pelo vulto que se tratava de um rapaz, como eu. Aguardei em suspenso, ouvindo aquele som de atrito e respiração curta se tornando cada vez mais próximo, cada vez mais próximo. 
Dei um passo para trás quando finalmente ele se aproximou o suficiente para estender a mão para fora e agarrar meu braço. A luz do poste despejou-se em seu rosto e eu pude finalmente discernir sua face. Dentro do vão, meu próprio rosto me fitava.



4 comentários:

Fabiana Cardoso disse...

Gislene adora um conto de terror, esse tem trechos de arrepiar!
abraços Fabi

J.C.Hesse disse...

Bem feito para mim, quem mandou eu ler, kkkkkkkk. Assim não vale, faço isso o tempo todo com meus textos e agora acabei vítima do que faço. Fiquei curioso e quero saber o que vai acontecer. Pior é que posso imaginar um milhão de situações.

Muito bom, estou aguardando mais.

J.C.Hesse

Roxane Norris disse...

Ui, amei!! Vem mais né? Começou numa fresta, mas me tomou os sentidos. preciso de mais!
Parabéns Gislene. Excelente texto!

Gislene Vieira de Lima disse...

Rs. Esse é o pedaço de um livro chamado "A Terra das Oportunidades Perdidas". Mas eu ainda estou remontando os pedaços.

Postar um comentário

Seja bem-vindo!
O sucesso deste blog depende de sua participação.
Comente!

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...