domingo, 10 de julho de 2011

O reverso do inverso



Olhando-me de frente não irá acreditar no que pulsa em carne viva, lindamente entre glóbulos rubros, explodindo em momentos tão meus que fecho as portas para que as damas não se sintam constrangidas... Em vez outra, certa feita, jogando os copos nas paredes ouvindo o titilar dos cacos ao chão, piso-os, amaldiçoando-me a passionalidade... 

Com as mãos ávidas, arranho as paredes, sentindo o a textura fria e lisa, deslizando por entre as digitais, que hora desejam, hora repulsam, lambuzando por toda a parte a moral... A falsa moral de quem finge não sentir nada...
Sinto... Deito-me com os sentidos... Penso... Espanto o sentimento; volto ao teatro estimulante de quem treina para sentir. Abro o armário, abraço as roupas; elas se encaixam em meu corpo, acariciam tal como a cereja no copo de martini, de um lado para o outro... Acariciando... Certo acidente de percurso invade a sensibilidade corrosiva, trajeto que somente os corajosos conseguem calcar o pé... Terra de ninguém... Sem nome, apenas reage aos sentidos - explosão! Bum! A ira misturada com a malícia; desejos secretos e proibidos, transborda o emocional, rasgo as roupas, sentindo o prazer que não se limita, ouvindo o ranger dos fios se desapegarem - desapego! Desgarrados a fórceps, ouvindo a dor, sentindo o vazio que há no meio dos fios... Do fio que junta ou separa... Onde está a minha dose de salvação para não morrer de saudade? A ausência que apenas se traduz, ou sinonimiza com a falta... Falta de quê? Falta de viver! 
Viver sentindo; sentindo a raiva; a temperatura da água... O amor... Sentir é a expansão do que consigo descobrir quando me distraio do ego. 


Piso nos cacos estendidos pelo chão... São em muitas vezes, sinonimizados com o meu desleixo evasivo inerente ao que a mim pertence, e somente a mim - amor próprio! Sou os cacos ao me destroçar a miúdo quando não sei perder sem sofrer... Espalho-me por entre os vãos que me escondem do mundo que não pode compreender a minha dor... 
Em contraprestação, sou também os pés, em tempos que levanto o voo do chão, com excesso de confiança, abuso do inverso da situação; subo tão alto que alcança a própria cabeça... Subo em minha mente achando lindo olhar o mundo do alto - a dona do mundo; vingativa, piso nos que não acreditaram nos louros de minha vitória...
Fecho a porta do armário, na busca entorpecida por sentir, prendo o dedo na emboscada de portas se fechando - fechando o cerco! Sou eu, pressionada, angustiada, sentindo a dor que me faz crescer sem que me dê conta... Desejo escapar; grito! Às vezes, xingo... Um palavrão se quer que expresse a dor, o dedo preso; a mulher presa, sufocada por seus grilhões, que a todo instante lhe cobram crescimento.


Abro a janela, minha vitrine do mundo; uma gaiola de vidro que me faz ver tudo, exatamente como se traduz o pulso da vida, porém, de modo reverso, de lá, visto de cá; de cá, vendo e sentindo de lá... a vida metódica passando do mesmo modo - todos os dias o sol nasce; todos os dias as pessoas andam pelas ruas... Todos os dias vejo a mesma cena!
Poderia quebrar o vidro e mudar a cena, andando pelas ruas gritando, pintando um arco-íris no asfalto. Poderia? Sim, poderia! - E o que me impede? O que me impede é a coragem de ser o que sou, e não a subversão do que as pessoas gostariam que eu fosse.
Com um sorriso de estampa colorida, saltitante aos olhos, abri a porta do mundo e joguei-me na vida real.




Texto e criação de Adriana Vargas de Aguiar, ao utilizar este texto, por favor, não se esqueça de mencionar a autoria.

9 comentários:

Amandio disse...

Nossa me arrepiei todinho quando li beijossss
muito bom!

Marcelo Lima disse...

Muito bom !

Jorge Sader Filho disse...

Pisar cacos no chão. Não é figura de linguagem, Adriana. Um dos mais famosos quadros do abstracionista americano Jackson Pollok, que usava como suporte para sua pintura papel manteiga estendido no chão, tão grandes eram os quadros. Um dos mais famosos, o "Blue Pole", foi pintado inclusive com sangue do genial autor, que deixou cair uma garrafa de uísque enquanto executava a obra.
Beijos,
Jorge

Caçadora de Livros disse...

Adorei flor!
^^
As imagens tbm, super vivas!

Anônimo disse...

Pois é, Adriana, todos nós temos essa subversão interna, um ímpeto contra-lei, mas a razão, que deve superar a emoção, nos sufoca dentro do próprio ego - prisão da alma. Abrir a porta do segredo contido ou desejar retornar ao útero sempre nos atormenta e, às vezes, nos consola. A linearidade natural nos convence.
P.S: obrigado pela visita ao www.antoniojoserodrigues.blogspot.com
Obs. Minha conta não está aceitando este tipo de janela. Por favor abra a pop-up: Painel/Detalhes/Comentários/janela pop-up

Beijos de seu seguidor
Antonio Jose Rodrigues

Átila Siqueira. disse...

Oi, gostei muito do seu texto, muito intenso. Quero agradecer a vistia no meu blog e fico muito feliz por ter gostado da minha postagem. Sobre aquele assunto da minha postagem tem um excelente livro, chamado Orientalismo: A INVENÇÃO DO ORIENTE PELO OCIDENTE, do autor Edward Said.

Um grande abraço,
Átila Siqueira.

A Mina do cara! disse...

que isso hein... Ah meu Deus...

beijo pro cê!

André Felipe Silva Batista disse...

Seguindo! :D

Ana Claudia disse...

Desejo escapar; grito! Às vezes, xingo... Um palavrão se quer que expresse a dor, o dedo preso; a mulher presa, sufocada por seus grilhões, que a todo instante lhe cobram crescimento.´

Minha querida, falastes tudo. Áplausos e reverencia.

Muitos beijos!

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