sábado, 19 de novembro de 2011

Não me culpo por minha imaginação



Quando acordo a passos lentos tento me lembrar de todos os sonhos e levado pelas codificações que eles me proporcionam, então eu sorrio para uma nova história. Nada acontece premeditado, mas já está ditado ao meu dia. Bom, alguns poderiam dizer que ter essa visão seja vantajoso, portanto eu sofro, realmente sofro. Na ida até a padaria recebo quantos sorrisos em meio a cumprimentos? Desde que prático o hábito da escrita parei de contar e nem sempre respondo como solicitado. Mais adiante uma mulher deixa o estabelecimento, pelo qual adentro, com um recém-nascido no colo e um cachorro que a acompanha majestosamente. O animal não se precipita a cheirar a embalagem dos pães. Eu quero torcer meu pescoço para avaliar aquela cena, encontrar a essência daquela família, eu quero papear e sorrir para a criança, fazer o cachorro correr como um qualquer atrás de um objeto.
      Não.
      Os olhos que me olham parecem recear minha expressão facial. Mude, eles continuam olhando. Eu poderia simplesmente abaixar a cabeça e me manter assim até ser chamado a atenção, todavia o sussurro me é curioso, o respirar é um mapa para a iniciação do descobrimento de um humano, o gesticular define os fracos e os fortes e a vida me é necessária. Não a minha vida. Ela já não existem faz tempo.
As folhas em branco e a tinta da caneta me aguardam ardilosamente. Elas espreitam o meu dia a cada palavra que surge aos poucos. A mulher aparece junto à criança e o cachorro apresentasse mais feliz de todo o espaço que possui para desbravar. Aonde eles vão parar eu não sei e julgo-me indigno de tamanha audácia. Se pelo menos fosse um escritor de verdade, procuraria por informações sobre eles. É casada? Quantos filhos? Mas o pecado toma conta de mim e o branco se perde em meio à letra nada delineada. Por que não permito um final feliz?
      A minha infelicidade.
      Na solidão das páginas que guardam a loucura de um escritor, surge o desejo por vê-la e certificar-se sobre o final medonho e triste que eles tiveram. Lá estava ela, mas feliz do que nunca pelo menos aparentemente, a criança já se equilibrava sobre as pernas e o animal ganhara um novo amigo que o entendia melhor do que ninguém. Quanto tempo faz desde o primeiro encontro? Dois anos.
      Segui-los?
      E aumentar o sofrimento instalado no meu ser? Eu não sei nada sobre os que me cercam e somente a superfícies deles compõem as páginas. Talvez “Não me culpo por minha imaginação” seja o título mais superficial que tenha denominado a um texto. Ele não me define em nada.
      A poucos metros jaz a esquina, por enquanto morta, mas eu sei que encontrarei outros.   


R.S.Merces


Texto e criação do autor, ao utilizar este texto, por favor, não se esqueça de mencionar a autoria.

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12 comentários:

@ Moda e Eu. disse...

SUPER LINDO! :)
Não tenho o dom de escrever assim, acho super maravilhoso quem tem, parabéns
BEijos, Blanc

Bento de Luca disse...

Parabéns pelo texto R.S. Grande sensibilidade! :)

Evanir disse...

Lindo demais !!
Hoje a custo terminei de ler a postagem muitas
vezes estamos sensível porque dói mesmo quando não há dor física, só psíquica, e esse texto além de lindo toca o coração .
Beijos no coração .
Lindo final de semana a todos do Clube.
Evanir.
Parabéns pela postagem

Mariana Ribeiro disse...

Olá, Renan!!
Adorei mesmo o texto, muito profundo e reflexivo para todos nós escritores.
Continue escrevendo cada vez mais e farei questão de continuar acompanhando aqui no blog.
Bom findi.
Bjos.

Mariana Ribeiro
Confissões Literárias.

Cidinha disse...

Olá passando pra desejar um bom fim de semana. Gostei do texto! A vida muitas vezes nos direciona pra outro caminho! Outra história. Bjos!

Cesar S. Farias disse...

A sensibilidade do escritor deixa-o muitas vezes solitário em suas projeções e idealizações da realidade. Foi bom ler o texto e me identificar com ele.

Marcello Salvaggio disse...

Bonita postagem, percebe-se que foi escrita com o coração

Dama de Cinzas disse...

Obrigada pela visita, Evanir!

Beijocas

RUDYNALVA disse...

R.S.Merces!
Interessante como as experiências do cotidiano, transformam-se em textos intrigantes...
Colocar as palavras que sentido, torna sim uma pessoa escritora, e foi o que fez com exímia maestria.
Parabéns!
Bom domingo!

cheirinhos
Rudy

" Eu apoio os novos autores"!

http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com/

Rubens Conedera disse...

Texto maravilhoso, bem pensado, com qualidade. Parabéns ao autor.

Truth girl disse...

Renanzinho
Ótimo texto, como todas as linhas que você se dedica a escrever, de uma sensibilidade invisível, em partes, no seu ser. Como sempre me surpreendi.Seja forte e leve seu talento à este país carente de literatura.

Grande beijo de sua amiga Amanda Trindade.

Denis Lenzi disse...

Renan escreveu um belo texto, provando seu talento na escrita conforme sua imaginação e sentimento mandam. Parabéns! Um abraços a todos!

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