domingo, 7 de abril de 2013

"Fobias" (texto de Luís Fernando Veríssimo)

Um escritor precisa ler bastante. Diversos tipos de texto, quanto mais diversificado melhor. Textos pequeno, textos grandes. E, claro, o que gosta também. Lemos muito por obrigação, mas a leitura sem interesse algum, simplesmente pelo prazer de ler é a melhor que se pode fazer. Ontem me deparei com este texto, e quero agora apresentá-lo a vocês. Fala justamente deste desejo de ler que não nos deixa em paz, e, se nada temos para satisfazer nosso desejo, nem sei. Mas Luís Fernando Veríssimo sabe como ninguém traduzir a aflição de se estar num hotel sem um livro para saciar a fome e sede de leitura. Vamos lá conferir? "Fobias" (texto de Luís Fernando Veríssimo) Não sei como se chamaria o medo de não ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (medo de lugares fechados), agorafobia (medo de espaços abertos), acrofobia (medo de altura) e as menos conhecidas ailurofobia (medo de gatos), iatrofobia (medo de médicos) e até a treiskaidekafobia (medo do número 13), mas o pânico de estar, por exemplo, num quarto de hotel, com insônia, sem nada para ler não sei que nome tem. É uma das minhas neuroses. O vício que lhe dá origem é a gutembergomania, uma dependência patológica na palavra impressa. Na falta dela, qualquer palavra serve. Já saí de cama de hotel no meio da noite e entrei no banheiro para ver se as torneiras tinham “Frio” e “Quente” escritos por extenso, para saciar minha sede de letras. Já ajeitei o travesseiro, ajustei a luz e abri uma lista telefônica, tentando me convencer que, pelo menos no número de personagens, seria um razoável substituto para um romance russo. Já revirei cobertores e lençóis, à procura de uma etiqueta, qualquer coisa. Alguns hotéis brasileiros imitam os americanos e deixam uma Bíblia no quarto, e ela tem sido a minha salvação, embora não no modo pretendido. Nada como um best-seller numa hora dessas. A Bíblia tem tudo para acompanhar uma insônia: enredo fantástico, grandes personagens, romance, sexo em todas as suas formas, ação, paixão, violência, – e uma mensagem positiva. Recomendo “Gênesis” pelo ímpeto narrativo, “O cântico dos cânticos” pela poesia e “Isaías” e “João” pela força dramática, mesmo que seja difícil dormir depois do Apocalipse. Mas e quando não tem nem a Bíblia? Uma vez liguei para a telefonista de madrugada e pedi uma Amiga. – Desculpe, cavalheiro, mas o hotel não fornece companhia feminina… – Você não entendeu! Eu quero uma revista Amiga, Capricho, Vida Rotariana, qualquer coisa. – Infelizmente, não tenho nenhuma revista. – Não é possível! O que você faz durante a noite? – Tricô. Uma esperança! – Com manual? – Não. Danação. – Você não tem nada para ler? Na bolsa, sei lá. – Bem… Tem uma carta da mamãe. – Manda!" (VERISSIMO, Luis Fernando. Banquete com os deuses: cinema, literatura, música e outras artes. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003. p. 97-98) Vi aqui: http://livre-se.com/fobias-texto-de-luis-fernando-verissimo

Um comentário:

Donnefar Skedar disse...

olá adorei seu blog se puder dê uma passadinha no blog e se gostar dele pfv siga-o desde já agradeço .
http://donskedar.blogspot.com.br/

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