quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Declaração de amor através da escrita




O leitor se lembrará...
Sim! Não tenha dúvida, ele se lembrará da angústia que é viver de ti escrevendo-te dia a dia. Sentindo os golpes de faca atacando um coração rançoso e jogado em um canto qualquer e ainda assim... Poucos serão os que têm a coragem de ler esta tragédia sem desfecho.
Nas manhãs, antes do alvorecer, livrarias vestidas de cinza, repletas e invadidas por aquilo que eles (leitores) não conseguem ver - o desalmar da literatura, quando prostituída pelo glamour, capitalizou a sensibilidade. A alma foi trocada pelo centavo e o zumbido distante, vinha de uma fonte invisível - o que é isso, edição feita a cascos a meio galope? Um formigueiro de obras anônimas agonizava-se na escuridão da realidade, só se conhece a humilhação na oferenda – compre meu livro, ele está aqui dentro (do peito), leve-o! Estou pronta a prostituir os meus sentimentos... Em vez disso, a sombra na estrada, trazia um livro debaixo do braço enquanto caminhava para lugar algum... Eu e tu, que para mim, tornou-se lenda mofada dentro das páginas que ninguém quer ler.
Na cama, uma enchente de ideias repensadas, formuladas com o afã do reconhecimento... A fumegante tigela do chá aguardando por mãos afoitas... Troco o chá e o resvalo de pão pelo teclado, preciso reencontrar-te em algum lugar. Quero mais e mais - não acaba nunca?
E depois a chuva a tamborilar numa cara de vidro gelado, é a vitrine do mundo, a minha é de papel... Tudo acontece após a sua janela; tudo acontece dentro das frases que construo. Se, contasse na escrita o que vi da simplicidade de uma bicicleta pelos enevoados desfiladeiros da cidade passando por árvores que incham, gotejam e brilham de umidade, seria um despautério... A sensibilidade da poesia fora substituída há muito tempo pela inutilidade literária... Iria vê-lo se espernear, gritando pela volta de minha inspiração em torno de si, precisa disso tudo para viver neste mundo inventado.
Fui ao seu enterro dias atrás, ao ver em páginas a anunciação de que não é aceito, nem tão pouco, bem vindo portal adentro das edições. A única que quer saber de ti, sou eu. Eu que não existo a não ser para construir um mundo que te faça respirar por entre as minhas palavras. O sol não nascerá para os poetas... Mataram o seu anjo da guarda e o seu sol late como um cão no quintal interior.
E agora,  nas raspas da lembrança - o leitor se lembrará... Lembrar-se-á que mesmo assim, lutei para que consiga o conhecer ( meu amor, meu segredo), como eu o conheço.
O leitor se lembrará que um dia escreveram no muro que separava o escritor louco com amor platônico da sua estante. Era um muro alto de espessura grossa, o qual se temia em derrubar; arrancar com as unhas o que separa o peixe de seu habitat natural.
O coração precisa bater. O muro não deixa, quer matar o iniciante sem fama - um feto abortado que não pediu para nascer. Veio assim ao útero da mãe com um dom a nutrir, sem saber ao certo, como se vender para ser aceito...
Segue a marcha da prostituição literária, contigo envolvido em todos esses percalços... Como mudar seu estilo? Pintando os cabelos de cor aceita... Como vender o escrito que revela seu corpo nu; quente; quase vivo, matando a alma ao ser trocado pelo currículo lattes? Como chegar a estante? Comendo o pão que o diabo amassou; deixando à edição, seus trocados mortos de fome, pela contemplação doce dos olhos de seus leitores...
O leitor se lembrará...
Sim, se lembrará... 
Conhecerá o processo do feitio, material e imaterial de um livro, sobretudo, o espiritual que lhe guarda comigo tapando a sua boca, não grite! Não te deixo morrer...
O leitor sentirá as lágrimas das letras que choram ao ter trocado a alma sua, pela companhia sonhada e bem amada do cheiro de letra nova e terebintina. Lembrar-se-á do amor que une o escritor a ti, amor maldito... Isso ninguém conseguirá mudar! Nem mesmo o capitalismo de última hora pelo coleio de montanhas tão brancas que os olhos se sentem nus - levaram tudo que tinha entre os campos de um sonho realizado através do anoitecer da fama salpicada de ouro em bolsos fundos das empresas editoriais escravizando-se pelos míseros vinténs recebidos em troca de sua paixão por mim (anjo meu, ingrata inspiração).
O leitor se lembrará...  
Lembrar-se-á que o inventor do que lhe fascina procurou por - conchas na orla do mar azul. Na orla do deserto onde o vento sopra silencioso e fica preto de repente - o luto da ciência do literato. O amado seu, aprisionado somente a sua leitura particular.
Sim, o leitor se lembrará... Hoje a liberdade de expressão permite que estas letras permaneçam no ar sem serem ameaçadas, mesmo contigo trazendo no dedo anelar, a orla dourada que vi refletida em uma fotografia. Roubaram-te de mim, antes de nascer à luz de uma edição...
Um dia ele o lerá e saberá ao menos que por um segundo desmedido, o sol esvoaça como um pássaro, as letras estarão voando e mais uma vez, de mim partirá... Um pássaro raiado de sangue em mãos que não se cansam, e depois se erguem contra o muro na dura batalha em derrubá-lo entre a morte da poesia e a vida que continua...
O leitor se lembrará... Não lerão a mim, lerão a ti, meu invento, apaixonei-me sem intenção.

Adriana Vargas de Aguiar


Texto e criação do autor, ao utilizar este texto, por favor, não se esqueça de mencionar a autoria.


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6 comentários:

J.C.Hesse disse...

Obrigado pelas palavras, obrigado pela lembrança, obrigado pelo alerta, obrigado!
Abraços

POESIA NA ALMA. disse...

Lembranças lindas! texto lindo... podemos viajar nas ondas das palavras!

Alinne disse...

Que lindo! Belas palavras.
Beijos.

Books e Desenhos

MIRZE disse...

Adriana!

Ótimo post! à luta!

Beijos

Mirze

Vanessa Souza Moraes disse...

Lembrar-me-ei!

RUDYNALVA disse...

Adriana!
Palavras bem empregadas e reflexivas.
Bem servidos estamos com sua escrita, sua paixão, sua dedicação e alerta.

Bom final de semana!

cheirinhos
Rudy

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