sábado, 21 de janeiro de 2012

Barro




Não tenho um jardim ao qual eu poderia sentar em uma cadeira de madeira e deleitar-me ao toque do vento no meu rosto. Aliás, eu agora choro e o único assento precisa ser escorado com uma pedra por ter quebrado uma das pernas. O odor que exala pelo ar toma-me os pulmões e causa tremores no corpo. Todos os anos que demorei para construir aquela casa! Trabalhava dia e noite, deixava de comprar as belas roupas da década de 70 e seguir minhas amigas aos bailes para ajudar meu marido — já falecido — levantar o recinto de nossa família. No ventre crescia uma vida e ao passo do investimento seu nascimento bateria com o fim das obras. Jazia ali uma pequena biblioteca com clássicos da literatura, entre eles Machado de Assis, móveis de sucupira e cartas que no furor do amor foram escritas com palavras a inundarem-me as pálpebras de lágrimas.
      Como queria culpar Deus por isso ou até mesmo o prefeito. Muitos soltam gritos nas ruas de ameaças ao prefeito da cidade e buscam por fundos para suprir as perdas. Querem me tirar da cadeira e levar-me para um lugar mais seguro, só que não existem lugares seguros aqui na Terra. Nós seres humanos estamos aos poucos matando-nos e acontece tão silenciosamente que quando abrimos os olhos tudo se foi para sempre. É uma correnteza forte capaz de arrastar as mais íngremes das construções e o que resta é barro. Encontramos ele em tudo lugar. No meio dos móveis, dentro da geladeira, nas unhas e por entre os cabelos. A inocência infantil faz a festa, pulam na água, correm atrás dos helicópteros filmando o ocorrido e descansam nos colos das mães desoladas. Não há comida e o estômago rejeita o cheiro de esgoto.
...

      É pouco o que imploro agora: levai-me água.        


Texto e criação do autor R.S. MERCES, ao utilizar este texto, por favor, não se esqueça de mencionar a autoria.

8 comentários:

Renata Guidinha disse...

Texto maravilhosamente denso. Deixa um nó na garganta. Preciso agora é de beber um pouco d'àgua.

Evelyn Dias disse...

Um aperto no coração. Uma culpa presente. Beijos.

Rubens Conedera disse...

O texto nos mostra a fragilidade de nossas vidas, e o descaso de nossas autoridades.

David.H.S disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
David.H.S disse...

Que texto profundo, que toca na alma e enriquece o coração lindo demais!!
Tocou profundamente!!!
Parabéns!

mfc disse...

Todos temos esse sentimento de pertença a algum lugar!
E nesse lugar crescemos em sentimentos... que não queremos ver orfãos.

Cesar S. Farias disse...

A miséria e o descaso dos governantes desmascaradas em poucas linhas. Esse é o diferencial dos grandes escritores.

manuela barroso disse...

A insegurança e o desconforto que espreita o ser humano a todo o instante...
A incapacidade de contornar tantos obstáculos desenvolve no ser humano uma conflitualidade difícil de resolver.
Um texto denso, inquietante.

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